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O HOMEM, O JANGADEIRO E EU.



Estávamos em férias num litoral quase deserto. Duas semanas já haviam se passado e confesso que o relaxante cenário de ondas e areia começava a me enfadar. Por isso, levantara-me bem mais cedo que todos em casa e resolvi explorar as redondezas, na tentativa de ver alguma coisa interessante.
Caminhei por quase duas horas e nada me deu a sensação de ser uma exploradora. Desejei encontrar até um extra terrestre que me ensinasse coisas super novas, ou até mesmo uma velhinha feiticeira de quem eu precisasse fugir atormentada. Animada pelos meus últimos pensamentos, decidi  tomar nova direção e foi neste ponto que começou minha extraordinária aventura.
Avistei uma jangadinha que se dirigia à praia, muito longe. Sentei na areia e fixei meu olhar naquele ponto branco, tão frágil que parecia vagar, abandonada em meio ao feroz oceano. Exercitaria assim minha concentração, esperando enfim a chegada da embarcação.
 Não sei explicar como, nem muito menos por que, surgiu ao meu lado um homem em seus sessenta anos de idade, pele escura, forte, falando sem parar:
- A moça sabe o que significa o que está vendo?
- Como?
- Não há sobre a terra maior coragem do que a que tem o jangadeiro. Olhar para trás, deixar seu amor, seus filhos, sua vida, lançar-se às águas, enfrentar a escuridão da noite, beber sol e sal, esperar os mistérios e surpresas do mar.
- Você é jangadeiro?
Ele não respondeu. Como se fosse para ilustrar o pensamento dele, começou a ventar fortemente e podíamos ver o sofrimento da pequena embarcação que se agitava sobre enormes ondas. Em alguns momentos, poderia apostar que a frágil estrutura se partiria em mil pedaços. Continuou com perguntas estranhas:
- Você tem certeza que essa jangada alcançará a praia?
Aquilo me perturbou. Senti repentino medo de assistir ao desaparecimento da jangadinha.
- Por que essa indagação tão triste?
- Você percebe que outra grande virtude do jangadeiro é a fé? Ele se entrega a Deus, que fez o mundo. Encomenda sua vida a quem é mais poderoso que a ira do mar. Sonha com quem vai encontrar em casa, esperando-o.
Àquela altura, eu já aceitara completamente a bravura do jangadeiro. Concordava com toda palavra que o homem dizia. Mas quem era ele? Alguém procurando aventura como eu? Alguém que encontrou na simplicidade o que buscava na raridade? O mar se agitava, soltando murmúrios ainda mais assustadores e eu não acreditava mais na possibilidade de salvação para a jangada. Pensei em voltar para casa correndo e pedir ajuda. Mas antes que eu fizesse algo, ouvi:
- Não pense nisto. Somente  jangadeiros têm a paciência e a sabedoria de retornar à praia.
- Você conhece bem jangadeiros. É um deles também? - perguntei, intrigada.
Mais uma vez, ele não respondeu. Levantou-se, firmemente, e encaminhou-se para a água. Seus pés cobertos da espuma branda, barba e cabelos emaranhados, calças enrolando-se às pernas magras. Eu o segui. A jangada era mais visível agora. A tempestade que o vento forte anunciava começara a se perder no mar, numa nuvem escura. Mas dentro de mim a tempestade me sacudia. Eu aprendia muito naquele momento. O sentido de viver sem subjugar-se a provas tão duras se delineava em minha mente.
- Ele está bem, agora?
- A fé que nele respira é que dirá. O mundo seria outro se todos fossem jangadeiros.
O barquinho torpe se aproximava da praia lentamente, como que cansado. O cheiro de peixes já alcançava nossas narinas. O homem deu mais alguns passos para dentro do mar. Parecia preocupado. Eu me sentia nula. Queria fazer alguma coisa, mas tinha a sensação de que o homem não deixaria. Arrisquei:
- Poderíamos chamar algum pescador que pudesse ir até lá e ver se houve algum dano à jangada? Será que tem alguém ferido?
Virou o rosto para mim e com uma voz suave respondeu:
- Não perca tempo! Imagine que dentro daquela jangada está o sonho de paz que o mundo acalenta. Está seguro? Existe realmente ou não passa de uma ilusão? Você pode ver o que há sobre a jangada?
- Talvez! Eu sinto cheiro de peixe, talvez haja peixe.
- Assim também é o sonho de paz da humanidade! Dele só há sinais. E somente será legítimo se for como o jangadeiro:detentor de coragem, fé e paciência.
A jangada estava bem mais perto de nós. Sentia-me feliz por ver que o sofrimento do jangadeiro estava terminando. Voltei a sentar-me na areia e esperei. Quis convidar o homem, mas não o encontrei mais. Olhei em volta e não havia ninguém. Que mistério! Olhei o mar e a jangada ainda vinha. Esperei o jangadeiro para abraçá-lo. Ele estava  exausto, quase morto. Dirigi-me a ele, com a certeza que não poderia evitar um comentário de solidariedade:
- Puxa como você sofreu, heim? A jangada está toda quebrada!
Ele sacudia uma enorme rede repleta de peixes. Olhou-me como se não concordasse comigo, interrogativo. Será que a sua coragem não o deixou sentir o perigo?
- É costume , moça! O mar é sempre bravo. O importante é que garanti a comida de casa. O sustendo do corpo não vai faltar.
Afastei-me, comovida. Quanta lição! Meu espírito sem fome nenhuma, farto, alimentado daquele peixe, fruto da simplicidade de entender a vida..
Martina D Oro
Enviado por Martina D Oro em 05/11/2006
Código do texto: T283083
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Sobre a autora
Martina D Oro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 55 anos
5 textos (257 leituras)
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Martina D Oro