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O Patolinha

Acordaram no horário habitual para a lida da chacrinha que já somava umas tantas árvores coalhadas de frutas diversas. Faltava capinar um canto aqui e outro ali, onde o mato se esgueirava e insistia em aparecer.

Há algumas semanas chegaram os bichos: codornas, galinhas caipiras, outras d’angola, que logo foram trocadas por patos, por causa do barulho enlouquecedor que gerou a ira dos vizinhos mais próximos. Chácara urbana tem dessas coisas...

Patos alojados, laguinho instalado com rampa e tudo e começou a produção de ovos. Ovo de pata, de galinha de codorna. Ovo pra dar e vender, mas principalmente vender.

Nessa “fábrica de ovos” apenas uma galinha não botava. Independente dos esforços dos donos, vinha dia, passava dia e lá estava ela, ciscando ao léo na sua solidão desovada.

Eis que uma das patas deu de botar de uma só leva doze ovos e o dono da chacrinha resolveu “repartir” um pouco a prole, pra alegrar a gregos e troianos – ou seria a patas e galinhas?

Foi assim que a galinha desovada acabou por adotar o ovo da pata chocadeira. Passados alguns dias e a orgulhosa galinha-mãe ganhou para si um lindo e amado patinho-filho, um patolinha!

E lá foi a orgulhosa galinha-mãe a passear pela chacrinha com seu desajeitado rebento que, seguindo seu instinto natural, foi inaugurar seu primeiro dia de galinheiro... no laguinho!

Qual não foi o desespero da galinha-mãe ao ver a cena. Na índole protetora típica das mães, se prostrou à beira do laguinho batendo as asas e cacarejando em desespero de dar dó, sem saber se pulava pra salvar seu filhote e deixava ele órfão de mãe-galinha ou o que.

O que se sucedeu àquele dia nem Freud-galo poderá resolver...

Patolinha toma banho no laguinho todos os dias. Sai de lá pra refestelar-se na terra, banhando-se de poeira como todo bom frango deve fazer. Fica parecendo um tiçãozinho ao final de toda a romaria.

Galinha-mãe continua prostrada à beira do laguinho acompanhando os banhos do filho adotivo. Já não se descabela mais, ou melhor, não se despena... mas também não entende de maneira alguma aquele ritual masoquista.

Também, em suas ciscadas pelo terreiro vira e mexe acaba arremessando o pobre patolinha desavisado que a segue por todo canto, ao contrário de seus primos pintinhos que ficam instintivamente na frente de suas mães-galinhas enquanto chafurdam a terra.

São uma dupla e tanto, galinha-mãe e patolinha.
Um bom exemplo de que a natureza é sábia, e que nós é que bagunçamos o galinheiro.
Ana Carolina Paes
Enviado por Ana Carolina Paes em 06/11/2006
Código do texto: T284036
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Sobre a autora
Ana Carolina Paes
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 38 anos
8 textos (575 leituras)
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Ana Carolina Paes