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                             A MININA BERADÊRA


Numa noite de festa do Padroeiro, quando todos volteavamos na praça, após termos participado da procissão e da benção do Santíssimo Sacramento, dada pelo padre, logo após ter anunciado o resultado financeiro, fui abordada por uma menina-moça que dizia ser afilhada dos meus pais.Ela disse:
- Ei, aliça, cuma vai?

Respondi educadamente: Meu nome é Marineusa.

- Discuipi, eu mi atrapaei. Aliça e tua tia, né?

- É verdade, eu tenho uma tia chamada Alice.

- Vamu dá uas vortinha, antes do baile da suveteria cumeçá?
Não quis ser indelicada, pois já a havia visto, em nossa casa, algumas vezes, quando foi pedir a bênção aos meus pais, e fiquei com ela.

Ela continuou conversando:
- Ar novena foi muito bunita e a missa tava cheia. Tinha vistido de toda qualidade. O meu é incarnado pruquê eu tenho premessa cum Coração de Jesus. Mar na pocissão eu posso vistir quaquer traje. Tô de apragata pruquê o sapato fez calo. A pocissão arrudiou as rua tudo. Tá todo mundo isbilitado de tanto andar, estrupiado. Vamu sentá naquele banco?

- Vamos, assim a gente descansa um pouco.

A cada pessoa conhecida dela que passava, ela dizia:
- Essa minina é fia dor meu padin.Vamu arrepará o povo dançá daqui um pedaço.
Ela criticava as pessoas com tom zombeteiro, especialmente as meninas que estavam vestidas com simplicidade.
- Vôte diacho, qui vistido mar fei, mar malamaiado.Óia aquela ôta, parece um ispantai. Cuma é qui vein pa festa toda dirmantelada daquele jeito. Eu só ando pronta. Toda alinhada. Toda festa minha mãe compra ua muda nova de rôpa pa eu. Eu tenho vistido de cintura baxa, um de marieiro, oto de brotim, num sei quantos; tudo guardado, só pa saí.

À medida que ela conversava, eu observava como falava errado, sem nenhuma cerimônia, e, pensava:
- De que vale ser rica e não estudar. Não sabe nem falar correto.

De repente alguém se aproximou de nós, conversou um pouco com ela e, marcaram encontro para mais tarde na casa de uma parenta comum.

Logo começou a observar um casal que havia sentado no outro banco e foi dizendo: Taveno, muié, aquele casá de namorado; num têin nem veigõia, fica só se abufelano no meio dos povo. E todo mundo cum os óio abuticado em riba delis, e elis num tão nem aí. Ela é muinto ispivitada. É só dando gaitada e num pensa na ingrizia qui vai dá si or irmão dela vê aqueli inxirido amulegando ela. Vai sê tanto bufete na cara deli qui eu tenho é dó.Ele é catrevage. Num quero nem vê a latomia, e adispois o zum-zum-zum da gota serena lá in nóis. Eli num vali nada, nem ua pataca, nem um sibasó . É mair liso qui os prato da musga e ainda pu riba é um paud’água, gabola cuma nunca se viu. Veve de relabucho in relabucho só aprontano sururu. Tem inté um buato pur aí qui eli tá cumprumissado cum uma tá e qui já butou os bain. A cunvessa é qui Elis vão si casá du miado de São Jão pá entrada di Sinhora Santana. Num sei se é lorota, si é buato deli pa fazê de fita.
Fomos interrompidas por alguém, perguntando se ela tinha trazido o rosário da mãe dela. Quando a pessoa saiu, ela disse: Mãe num si apasta desse ruzaro, reza num sei quantas veis nu dia.Ta veno essa beruá que veio aqui? Só qué sê as prega di Qulé. Pensa qui ta lordi só pruquê ta vistida cum vistido de pé-furado forrado de faiete. É bem verdade qui ela tem vistido di tuli, de tafetá, de bico bordado, de organza, tudo comprado na Ciarense... Mar tudo cum modelo de beradêra. Ela tem dinheiro mar num tem crassi, num é chique. Ela só conta pabulage, mar todo mundo sabi qui ela é besta e manga dela pruquê num sabi falá dereito. Num sabi si apresentá na suciedade.

Pensei, cá comigo: É sujo falando do mal lavado.

A orquestra começou a tocar e ela disse:
-Vumbora dançá ua paste?

Respondi:
- Eu não sei dançar e meus pais ainda não permitem que eu freqüente festas dançantes especialmente à noite.

- Inté logu. Apois ieu vou já já caçar ua camarada pa i caí na dança mais ieu.

- Está bem, até logo!

- Ô Muiézinha, óia aí, minha cumbinação, tá apareceno? Ou é a saia de baixo? Eu acho que tô vendeno toicin. Tá tudo dereitin? E o perfume? Eu butei Roiá Briá qui mãe comprou na mescearia de Zezo Rufino. Daqueli dus bom! Tá na última moda. U pó é caximiro buquê e o óleo du cabelo, mãe trove du Crato. É cheiroso, né?

Ela falava pelos cotovelos, não me dava tempo para responder, e dizia:

- Cunvessa, muié, tu parece qui perdeu a língua!

Ela foi encontrar-se com a amiga e eu fui para casa pensando na importância do estudo na vida das pessoas. Fiquei até penalizada por aquela mocinha. Ela merecia uma chance, mas o pai dizia que o estudo ficou para o homem.Que o destino da mulher é casar, ter filhos e cuidar da família.


marineusa
Enviado por marineusa em 08/11/2006
Reeditado em 08/11/2006
Código do texto: T285692

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Sobre a autora
marineusa
Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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