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E o que nos resta agora?

Na noite fria de ontem, saudoso por essência, não censurei minha mente em vagar pelos pensamentos e lembranças de tempos em que já fui feliz. Mas o que é felicidade? Qualidade ou estado de quem a tem. E quem a tem? Esse sentimento efêmero que acaba quando mal começa. Por que não é possível tornarmo-nos e mantermo-nos felizes? O que é o sentimento da felicidade na verdade? O que é verdade no sentimento da felicidade? O que é a vida, se não uma somatória de perguntas retóricas e respostas impossíveis?

Felicidade, nobre sentimento dos tolos que acreditam que a tem, ou que buscam justificar suas insignes existências no mundo com meras palavras. Palavras que não somam nessa equação, palavras que limitam o universo percebido da visão.

Ontem fez frio, muito frio. Caiu a noite congelando o mais virtuoso dos pensamentos. A ebulição das lembranças contrastando com a frieza da lua causou um choque térmico entre meus pensamentos e ações. Tivera este choque a habilidade de se transformar em ondas cujas freqüências fossem visíveis a olhos humanos, estas seriam capazes de emocionar até mesmo a mais fria das noites que já vivi: a noite de ontem.

Fui muito feliz de fato, ou teria sido tolo por acreditar que a felicidade me atingira em cheio e se quedara colada ao meu corpo tornando-se parte de mim? Tolo por querer. Tolo por acreditar. Tolo por pensar que a vida é um filme em que é possível perpetuar os sentimentos felizes do protagonista no último segundo por todos os segundos subseqüentes de sua vida, até quando ele vier a perdê-la pelo avançar da idade ou por um descuido de Deus.

Se no desgastante convívio cotidiano se findam a consideração, o respeito e a confiança, o que nos resta agora? O amor. O amor? Quero crer que o amor seja, mais ou menos, o produto destes três fatores combinados e se um deles tende a zero, o amor igualmente tenderá. Será? Ou será possível que haja algum outro fato capaz de potencializar essa equação e reacender àquela chama?

Eu amei. “Eu amei, ai de mim, muito mais do que eu podia e devia amar”, não posso privar-me neste triste momento de parafrasear Tom Jobim. Amei verdadeiramente. Sabe lá Deus o que isso quer dizer. Amor: sentimento tão... tão... tão...

De repente, não mais que de repente, sucedeu-me uma vontade incontrolável de ser Vinícius de Moraes. Demasiada pretensão remeteu-me ao Soneto da Separação.


Soneto da Separação
Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Eduardo Guimarães
Enviado por Eduardo Guimarães em 11/11/2006
Código do texto: T288069
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Sobre o autor
Eduardo Guimarães
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil, 37 anos
4 textos (153 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 14:05)