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Pensamentos e bolinhas de aço rolando por canaletas

Como concatenar meus pensamentos e traduzi-los ao findável universo das palavras? Novamente flagro minha mente repetindo a mesma retórica de outrora: miseráveis palavras, por que elas simplesmente escapam da minha mente agora?

Curitiba, 10 de agosto de 2006. Há um Pub Irlandês por aqui. Quem diria? Estou nele, mas a verdade é que estou só, percebendo o incansável movimento de bolinhas de aço, rolando sobre canaletas de diferentes níveis de altura. Uma aleta recolhe uma bolinha e a eleva a um nível mais alto e de lá ela inicia seu movimento de rolar por canaletas. Uma, outra, depois outra... Que força estranha está por trás disso? Por um daqueles segundos estúpidos que todo ser humano vivencia, fiz-me crer que eram meus pensamentos que davam as coordenadas de tais movimentos. Absurdo. Será? O que neste mundo é estranho o suficiente para ser chamado de absurdo?

Absurdo é um rapaz de vinte e poucos anos adentrar despretensiosamente em um Pub irlandês, encostar no balcão, pedir um B52, drink “shot” flamejante, olhar para todos os lados, perceber a beleza das coisas e pessoas, simplesmente sacar uma caneta, um guardanapo e escrever, escrever, escrever, como a única coisa que resta em um homem inundado de sentimento, não posso me privar de parafrasear o poeta agora.

A verdade é que estou só. Mas a verdade mesmo é que, assim como meus pensamentos, as bolinhas de aço continuam rolando incansavelmente. A verdade é que as pessoas olham com estranheza para o dito rapaz de vinte e poucos anos, que não faz outra coisa se não escrever. Quem dera o universo das palavras não fora tão limitado e que a velocidade da minha mão esquerda fora capaz de acompanhar o ritmo de minha mente pensante. Este texto inútil que eu escrevo agora não tem por que, nem porquês, propósito, nem fundamento. O guardanapo, a caneta e as bolinhas de aço rolando são minhas companhias nesta noite fria.

A verdade é que estou só. Mas a verdade mesmo é que não estou mais só, tenho a eles e meus pensamentos. Olho para o relógio. 11:48. Olho para as bolinhas de aço, parece que elas querem me dizer algo. As marcas nas canaletas indicam: 11, 45, 3. 11 horas, 45 minutos, 3 minutos, ou 11:48. Santo Deus, estou diante de um relógio este tempo todo. Um ser desprovido de qualquer intelecto seria capaz de deduzir isso mediante simples observação. Por vezes, os seres humanos se comportam como seres sem hipotálamo.

Por vezes, sinto-me como se fora um reles observador mundano, incapaz de processar e analisar os fatos que me cercam. Sinto-me uma criatura inerte, que se queda simplesmente com o que é visível aos olhos. Todavia, ver, tão somente, o que é visível aos olhos é, por si só, uma forma de cegueira.

Assim, despeço-me do guardanapo e deixarei a caneta ter seu merecido repouso. As meninas da mesa ao lado que, por um daqueles segundos estúpidos que nos transformam nas mais cegas das criaturas, creram que eu escrevia uma mensagem a elas, neste momento já estão lúcidas para concluir que o rapaz que escreve feito um louco não passa disso mesmo... um louco, que adentra em um Pub só e escreve, toma um B52 e escreve, olha incansavelmente para um relógio formado por bolinhas de aço rolando por canaletas e escreve...

Não estou mais cego. Como diria Saramago, vejo, enxergo, reparo. Poderia sair por Curitiba, gritando aos quatro cantos: sou vivo, humano, limitado, é bem verdade, mas provido do mágico dom concebido por Deus a todos os seres de nossa espécie. O dom de enxergar além da visão.

Mas a verdade é que estou só. Mas a verdade mesmo é que as bolinhas de aço rolando por canaletas me informam que um novo dia nasceu.
Eduardo Guimarães
Enviado por Eduardo Guimarães em 11/11/2006
Reeditado em 11/11/2006
Código do texto: T288075
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Sobre o autor
Eduardo Guimarães
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil, 37 anos
4 textos (153 leituras)
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