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Uma idéia fixa

Uma idéia fixa perseguia K. Idéia que foi gerada pela atividade de tráfego aéreo e agora reforçada por causa de um livrinho que lia. Idéia que invadia, cotidianamente, os pensamentos de K. “Você não pode errar!” Idéia imperativa. E no caso de K., o imperativo sempre o levava à infância. Via seu pai esbravejando num frenesi de braços alados. O não poder errar era uma tortura. O não ter uma segunda chance é como privar o ser da liberdade. Liberdade. Palavra cara para nós tupiniquins, muito mais ainda para controladores de vôo militares tupiniquins.

No livrinho que ganhara num sorteio numa dessas festas de 20 de outubro, dizia o seguinte: “Mais cuidado para não errar uma do que para acertar cem”. K. vibrava por dentro e surpreendia-se com a atualidade daquelas letras: “Como pode um texto do século XVII, escrito por um jesuíta que nem poderia imaginar o que seria a profissão de controlador de vôo, ultrapassar tantos anos e atingir a contemporaneidade?” K. ficava maravilhado com a atualidade do livrinho. E o autor jesuíta continuava: “Muitos o mundo nem conhecia até que delinqüiram, nem bastam todos os acertos juntos para encobrir um só deslize, por menor que seja”. K. achava tudo aquilo admirável. K. sempre fora cético, mas conseguia ver profecias naquelas letras.

Num dia, durante o serviço noturno, K. meditava sobre essas palavras em meio a dezenas de aeronaves que solicitavam sua atenção. Não erre! “…suba para o nível..., tráfego doze horas…, e…” Atenção, está em jogo sua vida e vidas humanas. “K., vou dar uma relaxada… Você me acorda daqui a uma hora? Tenho que estar pronto para a formatura de hoje cedo” “Ok… Já tinha me esquecido desta formatura… tenho tanta coisa pra fazer de manhã, mas estou tão cansado que ia pra casa descansar, mas tem essa formatura, né?” “Sim e não pode faltar, pois eles vão fazer chamada…” “…mas quem está saindo do pernoite, não está dispensado, não?” “Cara, acho que não… e você sabe como esses caras pensam, né? Primeiro as atividades militares, depois as atividades operacionais…” “É, eu sei… as vezes não sei o que sou… controlador ou militar?” “K., você é o que convém a eles…” “É… mantenha o nível 2… negativo… vet…” “Bem, vou lá, ok?” “Ok.”

O amigo de K. se retira, mas os pensamentos continuam a flutuar na mente de nosso controlador. K. sabe que qualquer erro no tráfego aéreo é fatal. Qualquer falta de atenção, ainda que seja natural, pode produzir a morte de centenas de pessoas. Ele se enfurece com a sua situação: militar e controlador. Quantas vezes K. teve que sair de seu turno de trabalho e depois participar, no mesmo dia, de uma formatura militar. Quantas vezes K. perdera sua tão merecida folga para exercer sua atividade militar. Formaturas, serviços de guarda, representações militares, etc. Aquilo não era justo. Justiça, outra palavra muito cara e rara em nosso país. E agora as letras do jesuíta faziam coro com as vozes das autoridades. O pensamento voltava cortando o momento: “Ninguém olha para o sol quando brilha, mas todos quando se eclipsa” O trabalho de tráfego aéreo jamais é percebido quando tudo está fluindo com segurança, mas quando acontece uma falha, ele é percebido por todos. Todas as vezes que K. providenciara separações de aeronaves, evitando assim colisões, jamais é lembrado, mas uma única falha, por mais efêmera que seja, torna-se eterna, torna-se a maior referência desse profissional.

K. não pode errar. Ninguém deseja que K. erre. As autoridades não querem que K. erre. Mas, meus amigos, K. pode errar. Seguindo um silogismo básico, podemos ver a veracidade dessa lógica. K. é um ser humano, o ser humano pode errar, logo K. pode errar. Aristóteles e seus silogismos acabavam de deixar angustiado nosso controlador. Se o controlador não pode errar, mas o controlador é um ser humano, e o ser humano pode errar, então o ser humano não pode ser controlador. Ou será que o controlador é realmente aquilo que costuma-se falar nos vários órgãos de controle, ou seja, todo controlador é mais que humano. Super-homem? Se não, é melhor que seja.

As autoridades criaram um certa infra-estrutura para atender o tráfego aéreo. Temos radares, freqüências, alertas de anticolisões, freqüências de emergências. E muitas outras coisas que colaboram para o serviço de tráfego aéreo. Mas uma questão persiste: “E quando toda essa infra-estrutura falha?” Numa palavra: caos. E pasmem, meus amigos, ela falha cotidianamente. Mas K. não pode falhar. Quando o radar falha, K. tem que estar pronto para funcionar sem radar. Quando não há freqüências? Como nosso controlador poderá falar com as aeronaves? Caos! É por isso que o controlador além de prover as separações adequadas entre as aeronaves, ele tem que trabalhar sempre com a hipótese diária da pane dos auxílios mecânicos do sistema.

Desculpem-me pelo parágrafo acima. Não quero assustar o leitor que costuma viajar de avião e nem muito menos os nobres colegas de profissão. Apenas queria dizer que com tudo isso o controlador está sempre atento nas separações, para que quando ocorrer o caos no sistema mecânico todos esteja em segurança.

Sete horas da manhã. Chegou a equipe da manhã. K. acorda seu colega, como havia combinado. K. veste sua farda e segue para a formatura. Formatura que presenteará autoridades. Depois da formatura as autoridades seguem para um belo bufet. K. pede uma carona ao seu amigo dorminhoco e seguem os dois, exaustos, para casa.


Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 14/11/2006
Código do texto: T290984

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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