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Dois meninos







Jovem ainda eu acreditei que dar aulas seria o mecanismo mais abençoado para fazer desse mundo um espaço magnífico, cheio de humanidade, compreensão e ternura. A caminhada!  Como seria longa! Com certeza cheia de sobressaltos, muitas vezes com insegurança, medo e alguns desatinos. Mas eu também tinha a total consciência de que valeria a pena, muitos momentos de felicidade iriam aparecer à minha frente, alguns sorrisos sinceros e para sempre. Seria uma lenta construção misturada ao amor, sonho, crença, esperança e o fazer justiça  a partir do trabalho árduo e do coração.
Muitas vezes voltei feliz para casa. Outras vezes chorando ou quase. Na maioria nas vezes voltei pálida como se tivesse “perdido o bonde e a esperança”  e, como Drummond, “sabendo que eu não era Deus, sabendo que eu era fraca. “Ah mundo, mundo, vasto mundo”...
Mas eu escolhi a caminhada e fui sua cúmplice de vida inteira, ano após ano o tempo contava com a minha presença.
E assim encontrei a síntese das melhores possibilidades: numa sala estava o Danilo. No ano seguinte, o Murilo.
Meninos comuns. Aparentemente comuns.
E eu fui descobrindo  na presença desses  dois meninos o quanto é bom acreditar! Eu jamais vira tanta bondade na vida de duas pessoas tão jovens!
Na sala do Danilo,  havia um outro jovem, o simpático e igualmente bem educado Gustavo,  cadeirante. Para qualquer mudança de sala, ida ao laboratório, qualquer movimentação, imediatamente o Danilo se levantava e ia de encontro ao colega para auxiliá-lo. Sempre com disposição, boa vontade, na sua inteireza e total compaixão. Um companheirismo  sincero, amoroso e infinitamente bom.
Antes: uma madura consciência social, um olhar comprometido com as mudanças do país, com o olhar direcionado para o direito do outro também.
Na formatura do Danilo e do Gustavo chorei, mansamente, sem que ninguém me visse. Os alunos entraram  elegantes e felizes. Entraram aos pares, sorridentes para os fotógrafos e cinegrafistas no Centro de Eventos. Mas o Danilo entrou apenas no final. Ele poderia ter escolhido entrar no salão com uma linda moça de vestido e cabelos longos. Mas ele preferiu entrar empurrando a cadeira do Gustavo. Foi emocionante demais essa cena! Valeram todos os anos da minha vida profissional! Valeu toda a luta, as dores nas pernas, na garganta, as noites mal-dormidas, as infinidades de provas para corrigir. Como a vida foi grande para mim naquele momento! Deus estava lá encima olhando, feliz e sorrindo mansamente e muito orgulhoso do seu filho Danilo!
No ano seguinte veio  o Murilo. Que felicidade! O mesmo sorriso, interesse, empenho, amizade! A mesma disposição para o trabalho, a mesma serenidade. Era a vida se desabrochando com no melhor sentido da primavera! Não tinha na sala nenhum cadeirante, mas se tivesse... lá estaria o rapaz à disposição, inteiro e presente.
Eu não conheço os pais dos dois meninos! Mas só podem ser as pessoas mais corretas, idealistas e cristãs no seu sentido mais abrangente. Devem ter gasto muito tempo na orientação dos meninos, no abrir-lhe os olhos, perceber que o mundo pode ser bom mas que tem que ser burilado cuidadosamente, com mãos e alma dos mais refinados artistas. Os pais dos meninos acreditaram que é possível fazer dessa existência o espaço mais belo que se traduz em encanto, valor, paz e suave melodia.
Vera Moratta
Enviado por Vera Moratta em 15/04/2011
Código do texto: T2910847
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Sobre a autora
Vera Moratta
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 59 anos
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1 e-livros (30 leituras)
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Vera Moratta