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O Clube da Praça de Taguatinga

    Aconteceu outro dia desses, um dia comum. A van que eu peguei para ir trabalhar estava malandramente fora de rota, subi nela sem entender direito. E então, sem querer, eu estava indo para Taguatinga, meio chateado com aquilo, mas a melhor opção era ir até a estação do metrô. Ainda por cima, a maldita van não entrou pelo centro, mas contornou por fora, pelo pistão, o que me deixou mais aborrecido ainda. Reclamei um pouco com o motorista, mas deixei pra lá, não sou de briga. Desci e comecei a andar em direção ao metrô, tentando esquecer o contratempo. Poxa vida, eu tinha planos de chegar mais cedo naquele dia, acordei com algum custo, me esforcei pra que tudo desse certo, mas eu estava mais longe do trabalho do que quando tinha acordado. Tentei esquecer tudo isso, no entanto, me pus a andar mais apressadamente.

    Quando atravessava a Praça do Relógio de Taguatinga, quase chegando, um desses mendigos bêbados foi me perguntando:

    - Confere aí, rapaz... cê num tem um troquinho pra me dar não? – enquanto batia nos próprios bolsos.

    Nem olhei direito para ele, balancei a cabeça e resmunguei um “tenho não”, como agente costuma fazer com esse tipo de gente (se é que se pode chamar assim). Enquanto eu continuava andando, ele continuava falando comigo: “Ô meu filho, num faça isso...” Quando ele já estava às minhas costas, sua voz bêbada disparou:

    - Cê num quer fazer parte do nosso clube?

    Eu não sei o que houve naquela hora, mas alguma coisa mudou dentro de mim. Senti-me surpreendido com a pergunta. Em uma fração de segundos, milhares de pensamentos passaram pela minha cabeça. Pensei nos “clubes” dos quais já fui parte, dos “clubes” dos quais já fui desligado, de outros que tentei construir, de outros que tentei destruir, de outros nos quais tento entrar. De repente, percebi que todos os clubes que já conheci são difíceis, cheios de critérios e pré-requisitos, de condições, de padrões e em todos eles, se eu desagradasse um pouquinho que fosse, seria sumariamente excomungado, rejeitado, apedrejado. E, pensando bem, esses clubes valem a pena? Não são eles todos invenções humanas? Um jogo social, um jogo da vida, onde respeito se compra e a aceitação é um produto, mas nada é de graça? E por que aquele clube, o clube do mendigo, seria menos? Aliás, não seria mais?

    E então, senti meu coração sendo quebrantado e me veio um súbito de bondade e uma fé na amizade... Eu parei. Parei como se tivesse tomado um choque. Virei-me, com um sorriso no rosto vindo não sei de onde e um sentimento forte e inexplicável que dizia que tudo que eu queria era fazer parte daquele clube, eu tinha que ser daquele clube! Andei em direção ao bêbado (a quem agora eu chamava de “senhor”), cumprimentei-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas e disse, num tom de elevação espiritual:

    - Eu quero fazer parte do seu clube. O que eu devo fazer?
    - Ô, rapaz, que bom!
    - E como se chama seu clube?
    - É o clube da Praça de Taguatinga... aí ó... -  e me apontou para os outros sócios do clube, sentados na beirada do canteiro. Todos acenaram me dando as boas-vindas.
    - Pô, legal...
    - Vem aí ficar com agente, rapaz, a hora que cê quiser...
    - Ah, eu venho, eu venho sim. Olha, eu num tenho troco agora, mas parabéns pelo seu clube, qualquer hora eu apareço.
    - Ah, valeu...

    Outras palavras de despedida foram trocadas, acenei me despedindo dos outros sócios do clube e ambos seguimos nossos caminhos, cheios de júbilo no coração.

    Maravilhoso clube! Não há critérios, o único pré-requisito é não preencher nenhum pré-requisito. Nunca vão me rejeitar, nunca vão fechar as portas. É de todos, é para todos, quem for a ele, não será rejeitado!
Regis Camimura
Enviado por Regis Camimura em 14/11/2006
Código do texto: T291107

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Sobre o autor
Regis Camimura
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 34 anos
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