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Pra não dizer que não falei de paz

TEXTO VENCEDOR DO VII Concurso de Crônicas "Onias Guimarães"

Pra não dizer que não falei de paz, taparei os olhos defronte ao televisor, tornar-me-ei mouco ante a má notícia e me alienarei da cultura do caos, enraizada na humanidade de maneira absurdamente célere.
Serei rebelde quando necessário; lembrarei quando mandarem esquecer; cantarei quando quiserem me calar; estarei aberto quando todos se fecharem. Terei da criança a inocência extraordinária aos adultos; encadearei luz na escuridão e rirei com quem anda amargo por si só.
Sentirei dores múltiplas, medos inenarráveis; do pobre, do rico, do paciente, do médico, do mendigo, do bêbado, do solitário, da mãe, da prostituta, do velho, da árvore. Nelas, não buscarei fórmula ou analgésico a fim de cura, contudo, aprenderei a viver em mundos desconhecidos, de repente a paz ali esteja.
Em um pequeno espaço, onde só pode ser aberto por dentro, comportarei o riso e a lágrima do palhaço, a agilidade e o medo de cair do equilibrista, a prisão e o canto do pássaro, o presente e os presentes. Ainda assim, incontido correrei atrás da paz.
Quando todos insistirem em ir, ficarei. Ora, virão outros; uns confusos, outros resolvidos; preciso recepcioná-los, abrir e trancar a porta ao entrarem, pode ser que saibam o que é paz.
Irei a sinagogas, templos, mesquitas, terreiros. Ouvirei padres, pastores, rabinos e toda sorte de líderes espirituais; talvez possa presenciar a paz em seus fiéis.
Incansável, vasculharei flores; vislumbrarei o céu, o sol, a chuva, a terra molhada; me renderei aos braços de uma paixão ardente, provarei das mais belas canções e degustarei do amor ao inimigo. Estarei em conflitos étnicos, em massas falidas, em guerras urbanas; cavalos ou aviões de guerra, quem sabe a paz surja ao acaso.
Caminharei aos quatro cantos, gritarei aos quatro ventos, sepultarei a arrogância, encher-me-ei de humildade e findarei o bom combate.
Trancarei a porta novamente, e espero que pela última vez, e a verei em um sono reparador, num sonho maravilhante. De certo que ela existe e que ainda existo... Nos encontraremos.
Pra não dizer que não falei de paz, ainda a trarei a outros...


Sócrates Simões Ramos
Enviado por Sócrates Simões Ramos em 14/11/2006
Reeditado em 12/01/2007
Código do texto: T291425
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Sobre o autor
Sócrates Simões Ramos
São Paulo - São Paulo - Brasil, 31 anos
8 textos (482 leituras)
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