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COEXISTENCIA

 Penso mesmo que a intolerância só deveria ser válida quando nossa vida é ameaçada, quando nossos bens são nos tirados a pulso.

É implacável a força da exclusão, é insensível, tirânica.

Muçulmanos, judeus, católicos, protestantes e negros se matando numa guerra sem fim. Governos déspotas se instalam, um após o outro, a minar a força e o orgulho do homem. Também governos se instalam nos corações defensores da família, das tradições, sem nenhum pudor ou amor expulsando os já desterrados ou tirando qualquer oportunidade de viverem de maneira comum entre comuns que na verdade todos somos.

Basta que juntemos crânios humanos dos que já se foram, médicos, padres, governantes, engenheiros, guerreiros, mendigos, não há nenhuma diferença, somos todos pó da terra. Quantos já vieram antes de nós! Quantos já desapareceram!

Fernanda é um exemplo vivo de exclusão. Tem cerca de quarenta anos, anda sempre sozinha e com medo terrível de ser abordada por quem lhe possa tirar o resto do que tem.
Na carteira masculina que usa, conserva fotos dos pais, dos avós, irmãos que teve, e fotos suas mesmo, quando menina, uma bela menina, longos cabelos, rosto rosado e angelical, mesmo uma beleza de criança.

Teve vida normal até certo ponto dela. Freqüentou boas escolas, e aos poucos se descobriu Fernando, cada vez menos Fernanda. E não conseguiu passar pelo vendaval que se abateu quando ficou clara sua opção. Expulsa que foi de casa navegou à deriva. Hoje, sem as madeixas de criança, mostrando na calvície doente a sua opção. Não bebe e não fuma, vive só, num cortiço, num cubículo que aproveita a luz do corredor onde tantos outros cubículos se alinham. Roupas penduradas a secarem, como bandeirolas a mostrarem nas sombras o espectro dos enforcados. Não tem iluminação privativa à ela. Roupas cuidadosamente arrumadas em caixas de papelão e algumas lembranças do tempo de menina, guardando saudades do tempo que se foi.

Esta é Fernanda e a intolerância que a condenou ao ostracismo. Já não é mulher, ou homem, embora se vista como tal. Na verdade não sabe o que ou quem é. Mais uma deserdada do Canindé, sem recursos e sem esperanças, vivendo com o pouco do plantio feito nos campos da sua mente, aguardando o último trem na estação...

Cabe lembrar a luta do reverendo Luther King pela segregação racial, aqui, pelo repúdio de qualquer descriminação:
-“Eu tenho um sonho que um dia esta nação se erguerá e viverá a verdadeira altura do seu credo. Creio que estas verdades são evidentes: Todos os homens são iguais...”

Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 18/11/2006
Reeditado em 22/11/2006
Código do texto: T294775
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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso