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DEUS NAO ESQUECE SEUS FILHOS - CRÔNICAS HISTÓRICAS

DEUS NAO ESQUECE SEUS FILHOS

A lua apareceu absolutamente linda, enorme, como um por do sol no horizonte. Havia um vermelhidão assombroso de bonito no início daquela noite, como que a anunciar um novo tempo. Era muito bonito de se ver para ser simplesmente uma lua de finzinho de tarde. Pude ouvir o burburinho do riacho ao longe e os sinos da igreja repicarem lá na vila anunciando a reza da missa. A natureza me saudava e o pai do céu me presenteava com a mais bonita das noites de verão nestas bandas. Os pássaros estavam todos indo se acalmar nas árvores da mata. Voavam rápido para não perderem tal espetáculo do alto, com vista tão privilegiada. Ah a liberdade. Como esses pássaros são felizes aí no céu. Tem de tudo. Tem comida de sobra, espaço infinito, águas abundantes, e limite nenhum. Voam simplesmente para todos os lados e podem cantar sem se importar se alguém os quer ouvir ou não. Estão sempre juntos, não há solidão, e ainda apreciam todos os dias os momentos mais bonitos do nascer, do por do sol e da lua cheia, deixando o sol com inveja de tão bonita.
Na casa grande ainda existe barulho. Ouço sinhazinha tocando uma música triste no piano importado da Alemanha. Escuto sorrisos dos meninos brincando inocentes, alheio a tudo o que ocorre em sua volta e sem se preocuparem com os afazeres do dia a dia. Vejo luz do quarto da sinhá. Decerto a mucama está preparando o leito para o casal repousar seu sono despreocupado com os sofrimentos das pessoas que sofrem ao seu redor. Nos fundos, há luzes e barulho de conversa de homens. O senhor se ocupa dos seus negócios e de suas vendas. Recebe seus companheiros e negocia troca de animais, de escravos, compra de uns, venda de outros. Adquire mais equipamento para manter funcionando perfeitamente esse engenho grande, que produz tanto açúcar, tanta cachaça e ainda tem aquela roça onde tanto escravo sofre debaixo desse sol que parece ser um castigo impiedoso e uma sina para os que foram arrancados da África para estas terras da América. Na senzala escuto o cantar choroso da Sebastiana, que para não entrar no desespero acaba tocando baixinho seu tambor e cantando as cantigas que sua avó ensinou. São lamentos, diz ela. São músicas aos orixás, para que livrem os escravos do castigo e não deixa morrer de faca ou de fogo. Sebastiana é negra forte, não dá mole no serviço, e de vez em quando consegue levar da casa grande um pouco de farinha e de carne que ganha da sinhá ou que pega escondido mesmo para seus irmãos de senzala. Os folguedos de Nossa Senhora também escuto ao longe. É permitido aos escravos fazer suas festas até certa hora, porque também se não, morrem todos de banzo. Muitas são as notícias que correm por aqui sobre engenhos queimados, negros fugidos ou ainda de assassinatos de senhores e seus filhos. É melhor para o senhor deixar o negro com suas festas para ter um escape de suas tristezas, extravasar suas angústias. Ainda ontem uma escrava suicidou-se. Estava grávida e não queria que seu filho nascesse nessa vida. Resolveu irem-se os dois. Também vejo os meninos escravos que brincam no pátio e parecem não ter noção do que os espera pela frente. Correm como se livres fossem por essas praças e quintais, por entre o gado e a roça, mas longe do engenho e da casa grande. Se o senhor pega menino de negro junto com os seus, ai ai ai, não é bom nem pensar no que pode acontecer.
Volto o meu olhar para a lua. Deus não esquece seus filhos e dá de presente esta visão do paraíso. Meus braços estão duros como o coração de pedra do senhor e minhas costas queimam mais do que o caldo de cana no tacho. Não há um só lugar no meu corpo que não tenha um sinal do castigo. Hoje o feitor estava na lavoura de cana e me viu sentar por alguns minutos depois de tomar um pouco de água no riacho. Eu sentia uma dor de cabeça muito forte, sem saber se era por causa daquele sol fora do normal ou por causa de uma queda que tive uns dias atrás, em que bati com a cabeça numa coluna da senzala. Eu devia ter ficado em silêncio quando ele gritou comigo numa interrogação que, na verdade, a resposta não interessava se eu estava me sentindo mal. Bastou um gemido e um mínimo de reclamação de dor para estar aqui. Esse castigo foi fora do comum. Fui preso no pelourinho, recebi chibatadas e ainda jogaram limão nas feridas, para eu me lembrar a noite inteira de que lugar de negro é no serviço e que deve ser calado. Meu corpo está queimando, mas ainda assim queima menos que a alma. Ela está ferida de morte e cada ferida é uma oração ao Pai do Céu, Nosso Senhor Jesus Cristo que também foi ferido injustamente. Ficar aqui a noite toda amarrado nesse tronco depois de levar tantas chibatadas é demais. Eu já tenho mais de cinqüenta anos, e não sei se vou suportar essa noite. Se Deus me levar, vou satisfeito. Essa vida não é digna de homem algum. Só fico com pena da Sebastiana, que vai perder seu Francisco neste tronco. Esse nome que me deram, diziam, é de um santo que pregava a pobreza e o amor a todas as criaturas de Deus. Acho que tenho algo desse Francisco, mas não conheço sua história. O senhor devia saber que por longos anos, desde os quinze estou aqui, dediquei minha vida a esta lavoura. Sou homem de confiança. Mesmo escravo, não sou de levantar a voz e nunca fugi. Sempre sonhei com minha liberdade, mas sei que nestes engenhos eu nunca vou passar de escravo. Aqui quem não nasce senhor, nasce escravo. E nestes engenhos somos nós que trabalhamos duro, todos os dias. Já senti muita febre e lembro-me de cada momento da minha vida aqui, dos carinhos da “Bastiana”, mulher que me deu os dois filhos e que o patrão vendeu, para não ficarmos de conversa durante o trabalho. Ah meu Deus, que vida injusta! Tanta dor e tanto sofrimento, tanto trabalho e tanto castigo. Eu sei que sou escravo, mas não merecia isso não. Meus joelhos já quase encostam no chão, pois não estou tendo forças para ficar de pé neste tronco, aqui no meio do engenho à vista de todos. É muita humilhação para o seu Francisco, menino feliz pego na África e arrancado de sua gente.
Hoje ninguém dorme na senzala. A raiva de cada um é por mim, como foi ontem por outro e como será amanhã por um deles que estão lá dentro agora. É sempre assim, e a gente acaba achando normal. Mas hoje é dia de vigília. Só espero que ninguém faça a bobagem de vir aqui, porque se o feitor pega fica muito pior, é castigo dobrado, sem misericórdia. Nesta noite, minha alegria é ver a lua, agora não tão grande mais como no seu início da noite e as estrelas, enfeitando gratuitamente o céu para esse escravo que sofre o castigo da escravidão. Minha alma dolorida devia estar moída de ódio, mas tenho raiva apenas. Raiva de estar aqui injustamente e raiva desse mundo injusto com os negros, que um dia, espero, estarão livres e poderão sonhar, cantar músicas que não sejam apenas lamentos ou pedidos de liberdade. Sonho em ver essas crianças correndo juntas, como filhos de Deus. Ah meu Deus, me perdoe se estou pedindo demais. Fico eu com minhas dores e as moscas que me rodeiam neste engenho e peço apenas justiça. Deus não vai deixar por isso mesmo nosso sofrimento. Eu sei que mais cedo ou mais tarde o senhor vai pagar cada mal que fez a todos nós. Ah vai.
LUCAS FERREIRA MG
Enviado por LUCAS FERREIRA MG em 09/05/2011
Reeditado em 27/06/2011
Código do texto: T2959650

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Sobre o autor
LUCAS FERREIRA MG
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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