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O Dia do Pão por Deus


Sempre no dia primeiro de Novembro, recordo com alguma nostalgia e saudade, quando menina, na minha aldeia, aguardávamos esta data com ansiedade não isenta de alguma gulodice.

Pois que sabíamos que as mulheres da aldeia caprichavam e competiam entre si na confecção das broas feitas com farinhas de trigo e de milho, umas cozidas no forno a lenha e pinceladas com ovo, outras fritas e enroladas em açúcar, cada uma com as receitas especiais guardadas de geração em geração, especialmente para o dia do Pão por Deus.

De manhã cedinho, as meninas levantavam-se apressadas, vestiam a sua roupa mais bonita, pegavam o seu saco de pano bordado pela mães e em grupos de duas ou três, começando por uma ponta da aldeia, iam batendo ás portas de todas as casas, pedindo:

- Oh tia dá pão por Deus…?

A dona da casa, já tinha preparadas as broas, e outros bolos, a que juntavam frutos secos, como nozes, figos, castanhas e também frutas, como romãs e maçãs e ainda rebuçados e dependendo da riqueza da casa, até podiam dar chocolates e dinheiro, sempre divididos por igual pelo grupinho.

Em mais quantidade, o que havia com maior fartura, como os figos secos e outros frutos, em menor, os bolos e broas que mais custavam a confeccionar como as broas de milho fritas, que nem todas as senhoras sabiam fazer ou não tinham tempo.

Também havia aquelas que não queriam ter muito trabalho e compravam bolos e bolachas de diferentes qualidades na mercearia da aldeia para darem ás crianças, mas fosse qual fosse a escolha, todas davam pouco ou muito, consoante as suas possibilidades.

Ao final da manhã, as crianças recolhiam a suas casas com os sacos cheios, satisfeitas e felizes mostrando a seus pais e dividindo com as amiguinhas menos afortunadas, a colheita do pão por Deus.

Depois que vim para a cidade, ainda vi algumas vezes crianças pedindo o pão por Deus, mas a tradição e a alegria com que na meninice o fazia com as minhas colegas, ficou lá longe nos anos dourados da infância que na altura nos pareciam pobres e hoje recordamos com saudade perdidos em mil preocupações e afazeres diversos.

Haveria mais a dizer sobre esta tradição, mas apenas quis transmitir-vos as minhas recordações do tempo passado como as vejo agora á distância de anos e anos que já não voltam mais.

Arlete Piedade
08/11/2006

Fada das Letras
Enviado por Fada das Letras em 20/11/2006
Código do texto: T296740

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Sobre a autora
Fada das Letras
Almeirim - Santarém - Portugal, 60 anos
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