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" TIVE QUE FICAR NA MISÉRIA, PARA CONHECER-TE",


      Quando eu era nenezinho, você não sabia o que fazer comigo, eu não saia da "nossa"  cama, é da "nossa"  cama. Talvez você não se lembra ,mais eu mordia tuas mãos, mordia a barra da tua calça, brincava  de esconde –esconde com teus filhos, até tua esposa me acariciava; eu era o centro das atenções.
Este aconchego que encontrei em tua família, veio de certa forma compensar o que eu havia perdido  e,com Isto ,fazer  com que eu esquecesse do triste acontecido, pois assim que nasci, me tiraram da minha mãe, tão logo ela me desmamou.
Fui crescendo no seio da tua família; minha  mãe era tua esposa, meus irmãozinhos  teus filhos, meu pai...você.Fui tambem crescendo sentindo  de perto teus problemas, tuas conquistas,tuas derrotas, tuas alegrias e tuas frustrações.
Na ânsia para vencer  na vida,você tinha que  competir com a grande massa, não somente você, mas toda a tua família.
E neste teu esforço  em busca de um amanhã  promissor, vocês tiveram que adaptar-se  ao tempo e financeiramente , obviamente que tudo ficaram difíceis; eu, reconhecendo que vocês não podiam pagar se quer a caixinha para os guardas ruas, me desdobrava em latidos copiosos, dia e noite, latia e mordia quem de "nossa" casa tentasse aproximar-se, muitas vezes com fome, e sem  um  trapo para proteger-me do frio intenso.
Mas tudo eu suportava, nada reclamava, comia o que me ofereciam e quando ofereciam, dormia no relento, e na solidão; não mais havia tempo para  oferecer-me um afago.
Mesmo assim,  eu acreditava no amanhã, pensava que assim que vocês galgasse melhor posição na vida, meus sofrimentos, e minha solidão, chegariam ao fim, afinal, eu pertencia a tua família, obviamente que não podendo trabalhar nem tão pouco estudar, fazia minha parte, latindo dia e noite ,protegendo o que nosso era.
O tempo passou rapidamente ;   teus filhos estudaram, tua esposa formou-se, você conquistou  um excelente cargo de chefia, já com uma brilhante posição financeira, compraram uma senhora casa,  vários quartos,inclusive com  canil de primeiríssima qualidade. Vocês  mudaram para a casa nova mas  não me levaram; não havia espaço na casa luxuosa para um cão sem raça definida ,eu fiquei ali por vários meses , com fome,com sede e  com saudade ,mas mesmo assim protegendo a nossa casa.
Muitos vizinhos aos quais alimentavam-me quiseram   adotar-me, mas como ? Como morar com outras pessoas, se  sómente conhecia vocês?  Para piorar minha situação,  fui acometido de uma terrível doença , fiquei demasiadamente  magro, com  aparência que dava medo; um dia deparei-me  com um pedaço de espelho caído no chão, e sinceramente não me reconheci.
Numa noite você apareceu em "nossa" casa ,  eu já  quase cego e surdo, lati uivadamente ,mas depois ,reconheci tua voz;  minha boca encheu de água, pensando que um leitinho  ou um bocado de carne moída estava em tuas mãos...mas para minha surpresa... você apresentou-se raivosamente, com uma corda nas mãos, bateu-me impiedosamente e, fez-me entrar num saco preto.
Tentei desconfiar das tuas atitudes, mas nem deu tempo, você  saiu cantando pneus ,num carro novíssimo pela sensação de conforto, vindo logo em seguida atirar-me num matagal, no meio da escuridão, na chuva e no relento, sem que eu tivesse o direito de ver pelo menos ,para onde  estava indo.
Procurei por você, mas teu carro era mais  veloz  que meu olhar de fraqueza. Passei a noite inteira, no mais miserável abandono ; gemendo, chorando, latindo e uivando.
Um senhor ouviu meus latidos  e veio visitar-me , comprovou meu   sofrimento e compadeceu-se de mim; ajeitou umas tabuas velhas, uns trapos , trouxe-me remédios, leite e amenizou meu sofrimento. Neste instante, eu pude valorizar , quanto vale as mínimas coisas desperdiçadas. Não contente  com isto, ele comprou uma casinha nova , dessas que somente cachorro de madame tem , e ajeitou-me ali ,protegendo-me da chuva , do vento frio e da fome .
A partir daquele instante , inúmeras pessoas passaram a  visitar-me, trazendo  tudo o que precisava. Nunca me senti tão amado!
Passando-se alguns dias ,parou um  carro enfrente a minha casinha, e eu deitado sem poder   enxergar,  nem  mover –me , senti alguém por perto, mas aquele alguém era diferente ...senti o teu cheiro,  te reconheci. Olhando para que ninguém te visse, você pensou que a casinha  estava jogada no lixo,e certamente a levaria para um outro seu cão,  mas quando  viu-me  ali dentro, balançou a cabeça, talvez envergonhado pela tua atitude , não acreditando  que eu tivesse encontrado amigos, que compadeceram das minhas misérias; mas amigos de verdades, amigos na bonaça e na miséria, amigos "pau para qualquer obra". Mas mesmo assim, não constrange-se, pode vir  visitar-me outra vez meu amigo, minha casa como que de propósito não tem portas,  é para você me ver  e,  mesmo não me tocando para não contaminar-se , te reconhecerei, embora não  expressando meu latido devido meu misero estado, lamberei tuas mãos, em gratidão ao bem que  fizeste-me  , pois aprendi que em tudo devemos dar graça.
O sofrimento é parte da vida , e mesmo muitas vezes dilacerando nosso, corpo, nossa alma e nosso espírito, serve –nos de experiências para suportar as afrontas e principalmente conhecer as pessoas; um grande filósofo também passou por isto. “ QUEM PASSOU PELA VIDA EM BRANCAS NUVENS, E  PLáCIDO REPOUSO ADORMECEU, QUEM PASSOU PELA VIDA E NÃO SOFREU, FOI ESPECTRO DE GENTE, SÓ PASSOU PELA VIDA, NÃO VIVEU”
Roosevelt Luiz de Souza Souza
Enviado por Roosevelt Luiz de Souza Souza em 26/11/2006
Reeditado em 26/11/2006
Código do texto: T301812

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Sobre o autor
Roosevelt Luiz de Souza Souza
Osasco - São Paulo - Brasil
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