DIVÓRCIO

Não sei por que, mas muitas pessoas acreditam na facilidade do divórcio. Outro dia um rapaz conversava comigo sobre o matrimônio dos pais. A mãe sabia que o pai a traía desde que se casaram e, em vez de tomar a iniciativa do desligamento, mantinha estratégia pouco convencional: jogar na cara do marido suas ausências ou incompletudes. O marido, cara de pau e tranqüilo, dava a entender que também se divorciaria, entretanto ela, a mulher, precisava dar o primeiro passo.

Tomando as dores da mãe – finalmente presenciara o pai não apenas com uma, mas com várias mulheres em menos de quinze dias – o filho convocou os quatro irmãos, já casados, com seus filhos, suas dores de cabeças e suas contas mensais, para resolverem o problema. Contratariam um bom advogado, especializado em direito de família, exigiriam pensão e expulsariam o pai da casa. Ele, se quisesse, procurasse uma de suas dezenas de mulheres.

Perguntei se ele morava com os pais. Respondeu que morava no outro lado da cidade assim como os quatro irmãos residiam em bairros distantes. Depois indaguei de sua vida, da vida dos pais, da vida dos irmãos. O pai trabalhava numa agência bancária e a mãe numa loja de roupas. A mãe ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa, cozinhava, lavava, passava, organizava, inventava coisas para fazer enquanto estava no lar. Já o pai, caçava as gazelas soltas nas avenidas.

O filho ainda me contou da rotina dos irmãos, da reclusão e de outros hábitos dos pais, da família enorme reunida eventualmente aos domingos, das brigas entre a esposa ciumenta e humilhada e o pai gavião e prático. Perguntou se não estava correto em procurar um bom advogado e providenciar o divórcio, leia-se a liberdade, da mãe. Seus olhos colados em minha resposta e o ar de superioridade desapareceram quando constatei a estupidez da idéia.

Certamente a mãe sente-se irrealizada no casamento, deve ter seus problemas de raiva, mas não odeia o pai. Se realmente odiasse, como ela provavelmente fala ou como o filho se mete a acreditar, teria colocado o marido porta afora ou ela teria se abrigado ou na casa de um dos cinco filhos ou de algum conhecido, de um amigo, de um parente. Quando se odeia, não se perde a vida esperando desgraças e desgostos.

O marido também pode soltar cobras e lagartos contra a esposa, entretanto o amor ainda existe. Platão nos ensinou as diferentes camadas do amor. Se o amor erótico do marido pela esposa encerrou suas atividades, o amor fraterno e transcendental continua vivo, intenso, aceso. Tanto é assim que todas as manhãs acorda cedo para comprar pão, leite e presunto. Detesta leite e presunto, mas deseja agradar a esposa assim como, também para agradá-la, adquire mamão e melancia três vezes por semana ou entra na fila do centro de saúde às duas horas da manhã para conseguir alguns exames para ela.

Marido e mulher sentam-se na calçada nas noites de calor e tomam chá ou chocolates quentes nas de inverno, visitam os parentes do Paraná ou do Mato Grosso, cortam a grama, limpam as instalações para receber visitas de parentes ou o churrasco de dia das mães, dos pais, da Páscoa, do Natal e do ano-novo, caminham eventualmente, fazem compras no supermercado...

Epicuro já nos advertia da necessidade de buscarmos a felicidade em qualquer lugar em que se encontrasse. A responsabilidade de nossa felicidade está em nossas mãos. Por que nem a mãe nem o pai jamais se separaram? O filho enumerou uma dúzia de argumentos, mas, sem querer julgar a vida do pai e da mãe, fiz uma pergunta prática:

- Você e seus irmãos estão dispostos a substituir integralmente o pai em todas as atividades? Jantar, almoçar, viajar, cuidar da saúde, fazer companhia, conversar, brigar, ter paciência, compreender os comportamentos, limpar a casa, fazer compras?

O filho baixou as vistas.

- Se você e seus irmãos, que já têm filhos e dores de cabeça, realmente substituírem seu pai em tudo que ele faz, talvez a decisão de divórcio esteja parcialmente correta. Mas, se vocês não vão substituí-lo, a ação dos filhos não seria apenas o mascaramento da hipocrisia?

As pessoas acreditam que possuem a melhor solução para os problemas dos outros, contudo algumas decisões sobre a vida dos outros se aproximam mais do egoísmo do que da bondade. Por que argumentei contra a atitude do filho? Porque, em determinados casos, é melhor ficar mal acompanhado – gritando, berrando, se irritando – do que ser esquecida numa casa em que silêncio e abandono desaguarão em depressão e suicídio.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 10 de junho de 2011.