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Experimenta

Ontem à noite tive um sonho. Sonhei que estava num bar, aguardando pacientemente alguma coisa da qual não me lembro (sonho é assim mesmo). De repente, me vejo num bar de moscas. Sim, eu estava no país das moscas. Insetos voadores do meu tamanho, indo e vindo, gritando, conversando, jogando dominó, biritando.
É, meus amigos. Nada mais absurdo. Mas eis que, de repente, surge uma mosca-garçonete, com aventalzinho, tranças nos cabelos, digo, antenas, e uma bandeja com um pequeno pote de cocô. Sim, cocô!!!
Horrorizado, pergunto se aquilo é pra mim. Ela confirma. Peço para que ela leve de volta; jamais comeria merda.
-Não vou comer isso. Sem chances.
Ela desafiou:
-Experimenta!
-Não! Me traga um salaminho...
-Experimenta!
N-n-não...
-Experimenta! Experimenta! Experimenta! - E, subitamente, começou a formar-se um zunido de moscas pedindo para que eu experimentasse a badalhoca. - Experimenta! Experimenta!
Meio desconsertado, e quase rendido, desci lentamente a cabeça e passei a prestar atenção no aperitivo, que já estava na mesa, à minha frente. Talvez não fosse tão ruim assim. Forçando um pouco a barra, seria só pensar num chocolate pastoso e quentinho, com um cheiro, ahn... diferente.
-Experimenta, vai! - Gritou uma mosca muito parecida com o Thiago Lacerda.
-É gostoso! - Insistiu uma mosca que era a cara da Fernanda Lima.
Não pude mais continuar com aquilo. Quaisquer argumentos meus seriam invalidados pela massa de moscas, todas voltadas para mim, pedindo, animadas, para que degustasse seu prato principal.
Aproximei o garfo do cagalhão malcheiroso, cortei um pedaço e comi. "Ora, até que não é ruim"! Tive uma vontade impulsiva de fazer com que todos pudessem provar cocô. Levantei-me da cadeira e, de súbito, exclamei:
-Experimenta!
E saímos pelas ruas, a fim de fazer com que todos pudessem comer cocô livremente, sem preconceitos. Passamos por um pasto, e ao ver uma vaca cagando, não resisti. Voei no gramado verde, pronto para saborear aquela bosta animal, com o perdão do trocadilho. Comia com grande vontade, quando acordei. Vi-me sozinho, na cama, e lentamente recobrei a consciência, para horrorizar-me com meu sonho. Cocô! Como foi possível? Será que me deixei levar pela semelhança das mosconas com artistas famosos? Ou foi a simples insistência das diversas moscas do recinto que me fizeram mudar de idéia sobre o bolo fecal?
Será que, se todos comerem merda, terei eu que comer também?
Baseado em que as sociedades formam seus paradigmas? Como - e por que - somos tão padronizados? Por que temos sempre que acompanhar as modas, seguir tendências que se surgem não se sabe de onde...? Se até os "alternativos" são tão padronizados... se a expontaneidade muitas vezes é sinônimo de loucura...
Nova lei federal: quem pedir a Nova Schin vai preso. Se o garçon insistir, peça para que a garrafa da dita "cerveja" lhe seja remetida intestino acima . Ou seja: peça para ele enfiar no CU!
Vamos ser quem somos, não o que as pessoas em volta querem que sejamos. Se isso parece um discurso degastado, aproveitem para pensar o quão padronizadas são as nossas idéias. E não se espantem...


*Baseado na tagline "Coma merda. Um bilhão de moscas não podem estar erradas."
Thiago Salinas
Enviado por Thiago Salinas em 02/07/2005
Código do texto: T30412
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Sobre o autor
Thiago Salinas
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
40 textos (15563 leituras)
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Thiago Salinas