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Machado

Gostava de ficar ali, olhando aquelas estantes abarrotadas de livros. Os livros sempre foram a sua paixão e desde pequeno sonhava em escrever seus próprios livros. Um sonho que certamente seria realizado, pois possuía uma determinação hereditária. Diziam que herdara do pai, que apesar de ser um simples pintor de paredes, possuía um espírito determinado e confiante em sua própria força.
Agora já está com 42 anos. E o sonho de infância realizado. É escritor de renome. Renome que já começa a atravessar o Atlântico de rumo ao velho continente intelectual. Jamais fora à Europa, mas agora já tinha convites para visitá-la em diversos países.
Real Gabinete Português de Leitura, construção de 1837, é o lugar que gostava de ficar admirando as pérolas literárias dos grandes poetas da humanidade. Folheava um Camões. "Ah, Camões!" Tentava ganhar do grande poeta luso inspiração para terminar mais um de seus romances. O romance já estava praticamente terminado, mas ele sentia a ausência do grande desfecho. Mas já não havia mais nada a falar. Por que essa insistência numa última frase? Isso o perturbava. Talvez um pouco de perfeccionismo?
Sua mente agora fugia e contemplava Carolina. "Ah, Carolina!" "Minha amada, minha única amada!" Doze anos de união. Apaixonara-se por Carolina loucamente. Sua musa. Sua dama. Sua Dulcinéia del Toboso. "Ah, Cervantes!"
Acreditava que a última frase para encerrar seu romance residia em sua relação com Carolina e sua relação existencial com todos os grandes poetas da humanidade. Seja Cervantes, seja Camões, seja Goethe, seja Dante, seja ele mesmo. Este último o mais confuso, o que mais lhe influenciava, o que mais o perturbava. E aquela onda gigantesca de livros o atormentava. Aquelas estantes do velho Gabinete inundada de letras e frases. Cada livro saltava-lhe os seus autores cobrando dele um final, um final digno de si mesmo. Um final que jamais se encerrasse, que perduraria por toda a eternidade. Um final que serviria no futuro de epígrafes. Cuidado com o final pueril, fora de contexto. Um final que seja sua essência. Jamais uma desculpa. O Camões na terceira fileira, da quinta prateleira saltava-lhe junto com bravos conquistadores. O Cervantes que fica um pouco acima de Goethe, no lugar reservado aos ilustres estrangeiros, saltava-lhe um Quixote de lança nas mãos cobrando-lhe explicações existenciais.
E diante de todas aquelas testemunhas. Mesmo cuidando para não usar de subterfúgios, acabou entregando-se a uma indiferença natural. Mesmo não querendo magoar sua bela Carolina, mesmo não querendo ofender todos aqueles monstros sagrados das letras, mesmo não querendo se contradizer, pegou a pena e arrematou: "- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 29/11/2006
Código do texto: T304357

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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