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Voando alto

A frase quase grito da minha netinha de três anos fez com que eu tirasse os olhos do livro que estava lendo e me concentrasse naquela semente de furacão que passava correndo: “-Vô, tô  aprendendo a voar...”. E lá se foi ela, dobrando o canto da casa e sumindo entre as flores do jardim, sempre sacudindo as mãos, imitando as asas de um passarinho. E eu fiquei parado, quase petrificado com a beleza daquele quadro, já esperando a volta da menina, que, pelo barulho, senti que estava dando a volta na casa.
Todos nós, quando crianças, “aprendemos a voar” com as nossas brincadeiras, impulsionados pela força da nossa imaginação. E voamos para todos os lados, explorando os espaços que nos cercam e, principalmente, dando rasantes sobre os lugares que mais gostamos. Pouco importa se não conseguimos erguer os pés a mais de um centímetro do chão. O que importa é que estamos aprendendo a voar por conta própria, sem ninguém para dar palpite. As únicas broncas que tomamos é quando os nossos vôos terminam em alguma aterrissagem forçada e com alguns arranhões nos joelhos ou em outros lugares. Mas nem estes “acidentes” nos assustam: no outro dia lá estamos nós, voando novamente e aprendendo a voar em lugares desconhecidos.
Que pena que a infância não dura mais tempo. Logo que nós começamos a achar que já somos gente, os medos e as indecisões vão, aos poucos, cortando as nossas asas e nos proibindo de voar. E nos acomodamos e nos transformamos em projetos de adultos, que não voam, que pensam duas vezes antes de tentar fazer qualquer tipo de “aventura perigosa” e que aprendem a se “comportar como gente grande”. Os nossos vôos ousados terminam virando lembranças da infância, quase sempre tingidas pelas cores da saudade e do nunca mais...
É por isso que eu presto tanta atenção quando a minha neta, ou qualquer outra criança, passa correndo por mim, tentando, rapidamente, aprender a voar. E é por isso, também, que, sempre que posso, viro controlador de vôo para estes pequenos, que decolam guiados pelo instinto, sem plano de vôo, sem limites de altitude ou rota para seguir. Eles mesmos traçam os seus rumos. Num minuto estão “voando” entre as flores do jardim e já no segundo seguinte “voam” atrás das sombras das nuvens que o sol e o vento brincam de fazer correr na imensidão do céu.
“Vô, tô aprendendo a voar...”. - Voa, minha netinha. Voa cada vez mais alto. Voa como quem conhece os atalhos do infinito e não se assusta com a força do vento que sopra em direção contrária. Voa por todos os caminhos desta tua infância colorida, inventando rumos e limites para estes teus graciosos vôos. E quando a vida vier com aquele papo de que já estás grandinha e que, por isso, precisas cortar as asas e deixar de voar, resiste ao menos mais um pouquinho. E pede para o destino te deixar voar mais um pouco, pois não existe felicidade maior do que estar constantemente aprendendo a voar. Voa, minha netinha, que eu estou aqui pertinho, maravilhado com a perfeição do teu vôo e pedindo para todos os anjos da guarda que acredito voarem ao teu lado pela vida inteira...
Milton Souza
Enviado por Milton Souza em 29/11/2006
Código do texto: T304974
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Sobre o autor
Milton Souza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
67 textos (5902 leituras)
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Milton Souza