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Quem disse? (*)


Escrever? Quem disse que sou escritor? Passeando na livraria elegante do shopping, deparo-me com a dura realidade. São milhares de livros, de obras que nunca lerei, estão ali; expostas, nuas, escancaradas, desalmadas, acusadoras. Bate o desânimo no clone de escritor eternamente iniciante. Para escrever é preciso paixão! Atributo que não tenho. De todas as minhas pseudo-obras, a mais cabalística é sempre a próxima.

Rasguei alguns manuscritos. Parecia coisa infantil. 

- Ops! Livro infantil vende “à beça!” Grita o meu ego.

Quer dizer, alguém vende “à beça”. O que, evidentemente, não é o meu caso.

Enviei certa vez um livrinho infantil para uma editora. Para outra e depois para mais uma. A mais educada disse que adorou os textos. Oba! Agora eu vou, pensei!

- Só que agora nossa agenda está cheia...E, a propósito, no próximo ano e no ano seguinte também – emendou. Desanimei. Rasguei tudo e joguei fora. Esqueci de eliminar as obras do computador. De vez em quando, ao tentar limpar a memória do meu velho micro, resisto à tentação de “deletá-las”. E elas ficam lá. Escritas para nunca serem lidas. Tesouro naufragado no fundo do meu oceano particular. Apresento-lhes a minha comédia.

Escrevo a esmo como o andarilho bêbado caminha em uma estrada. Sem origem, sem meta e sem rumo.

Dádiva é o computador. Tudo aceita. Até os absurdos de uma mente vazia.
Hoje o presidente do Banco Central está passando por um dia difícil. Grandes homens, grandes tombos. 

Já pensou na hipótese de estar aqui por acaso?
Qual a finalidade da criação?
Deus criou o homem que criou o quê?
Somos parceiros de Deus na criação do Universo. Verdade? E as diferenças de crença e religião? 

- Criador! Quero os meus dividendos no final do ano!

Gostaria de não saber tanto. Como são felizes os ignorantes, justamente eles, os que nada sabem, têm menor peso para carregar e não precisam se preocupar em provar coisa alguma. A ignorância é uma benção!

O saber é um fardo que Deus coloca nos ombros dos seus eleitos. Eleitos para sofrer. Deus é um sádico – diria Woody Allen. Escrevo assim porque não tenho coragem de assumir a autoria de tamanha heresia. Eu, enfrentar o criador? Deus me livre. Deus, Deus, Deus... Porque eu gosto de repetir esta palavra? Afinal, não é pecado dizer o nome de Deus em vão?

Nunca fui um bom católico. Aquela história de é pecado isso, é pecado aquilo não entrava na minha cabeça. Nunca entrou, nunca entrará...

Ops, nunca é tempo demais. Tenho toda uma eternidade para mudar de opinião. Se não for nesta vida, será na outra. Outra vida. Outro tempo, outra era, outro momento. Gosto de acreditar que sou eterno. Criado, um dia, em uma época perdida no passado infinito e caminhando para algum ponto do Universo em que brilharei ao lado do criador. Ao lado na frente, embaixo, sei lá. Perto do Criador já é o bastante. Não te parece haver algo errado nesta história?

Se você estivesse no Matrix iria escolher a pílula azul ou a vermelha? Saber ou não saber, eis o mistério do ignorante. O chimpanzé não sabe que existe, por isso é feliz. Vai de galho em galho, come, dorme, transa e leva um dia atrás do outro. Nem sabe que os dias existem. Mas nós, nós sabemos. Viemos acumulando conhecimento atrás de conhecimento, em uma seqüência infinita de vidas após outras vidas e... Aqui estamos!

Esta carta bem que podia ser traduzida como reclamação cósmica ao criador. Ei Deus, deixa de sacanagem pô! Explica melhor isso para a gente! Assim não vai dar não.

Na minha mente pintam-se em cores berrantes aquelas histórias do Paulo Coelho: é o mestre que vai e o viajante que volta. Somos todos viajantes tristes em busca de uma descoberta. Aonde se esconde o meu tesouro?

Conversando hoje com o meu barbeiro eu percebi uma coisa: ele, jovem de 22 anos apenas tem sonhos. Pensa em conquistar um milhão. Muita grana? Talvez, para quem sabe o que fazer com ela. Já sei porque não sou milionário. Não tenho a gana de sair correndo atrás de grana. O máximo do meu esforço foi estudar pacas para passar em 2 concursos públicos. Fui fazendo escadinha, escadinha da vida. Perdoem. Gosto de escrever assim, assim como quem não quer nada, dedilhando o teclado com minhas abobrinhas sobre a vida, o tempo e o vento.

Quer saber como é a minha vida? Eu te conheço?

Jargões modernos. De repente, na sala entra minha esposa, com um prato e duas laranjas. Começa a falar e a descascar as frutas. E fala da separação do Ronaldo e da Cicarelli. Um barraco em uma boate. Não importa. Tive que ouvir que foi a gota dágua. O Craque largou a “Top”. Coisa de ricos, de marketing. Casamento que nunca houve. Devia ser coisa séria, mas não é.

Minha esposa fala dos “emails” para o Paulo Henrique Amorim, em um programa vespertino na TV, sobre este assunto. Muita gente falava que a “Top” devia abrir uma consultoria para montar barracos – sua especialidade.

Lá na cozinha, enquanto escuto e dedilho mal educadamente o teclado, minhas filhas repassam pela enésima vez a “Aquarela”, de Toquinho, e ensaiam coreografias para uma apresentação de dança do colégio.

Um pouco de silêncio se faz entre o casal. Enquanto ela descasca as laranjas, eu toco o teclado e as filhas dançam na cozinha. Tudo perfeito em um lar brasileiro metropolitano de classe média.

Quando achei que ela iria parar, volta ao assunto e uma outra laranja paga com a vida a natureza de nascer como fruta.

- Ele sempre foi de farra. É o que digo!

Fofocamos só para passar o tempo. Minha querida tela de computador, aqui despejo mais algumas palavras soltas e bestas jogadas ao vento com destino ao nada. Não tenho aonde me afundar. Não bebo, não fumo... 

Ela volta a falar... 
O assunto: Daniela, a “Top” do “Crac”. 

Escrevo “Crac”, de propósito, duplo sentido. Agora fala da Xuxa que disse não acreditar em casamento. GOOOOOOL da Xuxa! Se for verdade. Por que será? Experiência de vida, diz minha esposa, parece que “a coisa na casa dela não era legal entre os pais da Estrela” – Rainha – Mor das crianças.

Agora minha querida fala de uma aluna sua que perdeu uma filha com câncer. Ela estava feliz porque havia resolvido tudo com a sua cria antes que ela morresse. Sentia-se aliviada. Disse que o enterro da filha foi leve, ela se sentia em paz. A menina foi cremada, era budista. Não sabia que budistas cremavam seus corpos.
Tanto faz que o façam, você já está morto mesmo.
Minha esposa terminou de assassinar as duas laranjas e posta-se à vontade no sofá velho, esburacado, corroído pelo tempo e pela nossa criação particular de cupins. Um dia a casa cai... 

Diante da minha indiferença ela sai e vai alertar as meninas para irem dormir. Mais um dia que chega e me aproxima do fim desta jornada terrena. Por quantas vidas passei? 

Mistério guardado a sete chaves pelo Senhor do Tempo. 

Aquarela começa de novo na cozinha. 

Minha esposa volta para a sala com uma calça jeans barata que comprei no Shopping. Pedi que fizesse a barra. Não gosto de calça sem barra feita. Fico parecendo maloqueiro. Ela começa a cozer e fala que amanhã irá dar uma aula de dança ao invés do tradicional alongamento, para alegria das alunas. 

Morarmos em um cubículo, apertado entre arranha-céus, gaiolas humanas. Ainda habitamos cavernas. São construídas com requinte, mas são cavernas. Amontoados ao costume dos primeiros primatas. Vida moderna e feliz. Não precisei matar um javali. Hoje não matei nada, errata: somente o meu dia.

- Dá essa régua perto de você!

Eu dou a régua que repousa dentro de uma caixinha de E.V.A. azul, com a forma de uma camisa de time de futebol. Foi presente de minha filha mais velha, quando na 4a série. Dia dos pais, sabe aqueles presentes que a escola inventa e que você recebe com cara de satisfeito, sem de início saber bem o porquê? Pois foi. Se bem que a caixinha é bonitinha e enfiamos uma série de coisas dentro. Tesoura, estilete, lápis, clipes, caneta, borracha, marcadores de livro e qualquer coisa que nos recusamos a jogar no lixo ou a guardar em lugar mais digno vai parar na caixinha azul. A camisa é listrada de azul e branco, na vertical, pois emagrece.

Escrevo por que é uma forma de matar meu tempo, minha vida e a mim mesmo. Sou covarde demais para morrer. Apesar do meu jeito, sou feliz. Tenho um bom emprego e um bom salário. Mas estou buscando um rumo, uma direção, um sentido na minha vida surda. Sabe por que ela é surda? Porque eu, dono da vida, só escuto o que quero e não o que devo. Hora de dormir. Vou desligar o micro e parar de escrever. Escritor eu? Pura bobagem. 


(*) Texto premiado com a Sexta colocação no Concurso Literário da Affego - Assoc. dos Func. do Fisco de Goiás, aberto ao público, em 30/11/2006.

Comentário do Autor:

Como escreveu nossa prezada colega Sílvia Mendonça, este é um “texto maluco” nascido do nada, simplesmente relatando um pensamento atrás do outro, um registro da mente humana em seus delírios. Se um ser de outra dimensão passasse por aqui, em alguns momentos de nossas vidas, podendo ouvir pensamentos e testemunhar nossa rotina, colheria o que aqui registramos, ou algo parecido, dependendo do emissor. Foi o primeiro texto que escrevemos em nosso retorno às letras, depois dele, tudo fluiu: pingamos os “is”, as vírgulas e pontos se encaixaram. Este filho, sem pé ou cabeça, me é mui precioso. Reflete um desafogo, um devaneio, um sonho no limiar da realidade, transcendente e audacioso. Não é um texto a ser julgado, simplesmente nasceu para ser lido, ou abandonado, assim como os pensamentos mais íntimos... Um abraço a todos.

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 30/11/2006
Reeditado em 30/11/2006
Código do texto: T305644
Classificação de conteúdo: seguro

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Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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