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DE LIVROS E DE LEITE


                                              Minha mãe gastou sua vida até o final sem conhecer as letras. Era agricultora como estas mulheres de Severiano de Almeida-RS que levam livros para casa em sacolas. Minha mãe poderia estar entre elas se soubesse ler ou, se alguém lhe tivesse motivado à leitura quando ainda tinha idade e tempo. Embora minha mãe não soubesse ler, com o dinheiro do leite das vacas que ela ordenhava, comprei um de meus primeiros livros. Meu primeiro livro foi de leite.
Z                                             Jornal Zero Hora, 24/11/06, livros e rostos. Livros desgastados, rostos felizes. Estas mulheres, entre vacas e plantações, vão descobrindo o leite das letras e abrem valas entre páginas.  Ler é bom, dizem. E vão passando o deleite para filhos, e maridos, e vizinhos.
                                              As mulheres agricultoras também lavram. Não é por nada que palavra tem “lavra”. Quem lê lavra, semeia. E lavradora tem dor. A vida nem sempre é mesmo fácil. No campo e na cidade. Quem lê, lavradora ou operária, planta a dor, ou se opera. Quem se opera abre as entranhas para tirar pedras. Nos rins, na vesícula. Quem lê, mulher ou homem, vai usando as pedras das entranhas e da terra para construir sentido na vida insensata. Com leite das pedras se dá gosto à vida insossa.
                                           Feiras do Livro só dão certo em escolas e em praças. Nas escolas, talvez porque a leitura é quase uma obrigação. Na praça, porque a gente se encontra para papear, jogar palavras fora. No papo da praça gastamos palavras. E vem a miséria da falta. E então os livros enchem a dispensa e nos salvam da miséria com sua misericórdia. Lemos com prazer e revivemos. Deleite.
                                             No fundo, somos todos assim agricultores, lavradores e operários. Os livros nos salvam das tormentas, das enxurradas que levam embora as sementes, do dia a dia estafante das fábricas, do suor do rosto que a gente seca e volta. Na praça, a gente fala, ouve, conta causos, fala de casamentos e velórios, de amores e de perdas. Inventa verdades de vento. E, depois, vamos embora com livros. Roubamos a vida dos personagens, ou entregamos a eles a nossa. A vida dos personagens é tão triste, tão sofrida, tão insensata. Vida de leite doce, azedo, coalhado. Vida deleite, de leitura.
                                           Estava lendo sobre estas mulheres agricultoras que levam para casa uma sacola de livros. Elas dizem que os maridos querem saber o que guardam as sacolas. E os filhos querem saber se as sacolas não vão fazer mal às mães. A semente dos livros vai crescendo, e como o grão de mostarda, se transforma em árvore onde pássaros do céu fazem ninhos. No final do ano, as mulheres agricultoras colherão o trigo e  o pasto, o milho e o feijão, e comerão o queijo com o leite das vacas e as palavras dos livros. Das valas de seus arados e das tetas de suas vacas nascerão livros e livros. De leite, de leitura. Das lavras e dos livros.
                                             E pensar que muitos de nós,  morando em pequenas ou grandes cidades, com tanta facilidade para a leitura, quase nunca abrimos um livro pra ler...
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***O final de ano anda me arrastando a vida. Por isso não tenho vindo aqui para ler ou para postar.
Mas logo estarei mais descansado.
Abraço a todos os meus amigos.
Pablo
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 30/11/2006
Código do texto: T306172
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5113 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 20:56)