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SEXOS E ECOS

Ele era definitivamente uma pessoa sem eira nem beira, nem meio. Sua própria mãe achava o filho da vizinha mais bonito e inteligente. Há certas coisas a serem ditas em certas horas, há pessoas que erram a hora, mas pessoas que nunca acertam não existem, existe a pessoa: ele.
Isso sempre atrapalhou sua vida social e profissional, mas até aí tudo bem, o problema mesmo era sua abordagem à massa feminina. Foras, ofensas, risos de ridicularizarão eram suportáveis, mas os tapas na cara realmente doíam. Ele realmente não possuía nem um tato social, mas sua perseverança era exemplar.
Até que um dia, Emília, recém chegada de um estágio na Inglaterra, estava com a turma no bar que sempre nos encontrávamos. Ele não perdeu a oportunidade, lançou mão de mais um de seus discursos inoportunos.
- Emília, seus olhos ficaram tão lindos depois desta temporada na Europa.
Do momento em sua boca fez a primeira articulação até a última foi uma agonizante espera para a gargalhada coletiva, porém a expectativa foi abruptamente interrompida por uma resposta inesperada.
- Nossa! Você é tão nonsense que chega a ser cool.
Nonsense, uma pessoa sem noção nenhuma, sem a menor intimidade com a vida social... cool, era hilária a falta de sentido de suas perguntas, observações, respostas e afim, mas cool e nonsense na mesma frase, vindo de uma pessoa recém chegada da Europa, com experiências internacionais ainda latentes, era muita sofisticação, e irrefutável devido ao currículo da enunciadora.
O que aconteceu depois foi o irremediável, ele agora com ar de modernidade, e nós, os outros machos, antes predominantes na mesa, sentimos as dores do regresso às cavernas e o peso dos tacapes nas costas. Maldita Emília, tantas palavras boas para serem usadas: ridículo, retardado, estúpido, abestalhado, irreverente se quisesse elogiar. Mas aquelas, não.
O trágico fim de uma noite só teria sido suportável, mas a falta de graça, que agora sentíamos nas bobagens dele, estendeu-se para além daquela madrugada. A história logo se espalhou pela comunidade feminina, em várias versões e formatos, uma melhor que a outra. Já havia explicações para sua conduta social em Francês, Italiano, Alemão, algumas até mesmo em Latim para dar um ar mais científico. Ele tornou-se o centro das atenções, já não era mais reconhecido por ser nosso amigo, nós éramos reconhecidos por sermos seus amigos.
“Cool”, “nonsense” o raio que o parta, o desgraçado virou pop star, mulheres que nunca havíamos visto apareciam do nada, como que se saltando de árvores ou saindo de bueiros para falar com ele, e como riam, e não era o riso de ridicularização de costume, virara um riso de consideração, gargalhadas de reconhecimento, algumas com evidente cunho sexual. Alias, sua vida sexual, não posso dizer que melhorou, porque do nada à incrível possibilidade de escolhas seletas, não é uma melhora, é um absurdo, é ridículo, o filho de uma mãe tornou-se o troféu mais valorizado pela população feminina da cidade.
Os planos para matá-lo foram inevitáveis, os mais adaptáveis tentaram introduzir em suas conversas frases sem sentido, besteiras impensáveis, porém tudo em vão. O ridículo só se tornava agradável aos ouvidos femininos quando vinha de uma boca, o nosso amigo, ou melhor, ex-amigo. Voltamos aos planos para matá-lo.
Envenenado, não muito dramático; tiros, muito barulhento, chamaria a atenção; facadas, muito provinciano, não fazia nosso estilo; empalado, era o merecido, mas de muito empenho na execução; enforcado, até parecia interessante, mas tornaria-se um mártir. E nesta última palavra a realidade nos despertou, não poderíamos matá-lo, tornar-se-ia um mártir, um ídolo, um mito. Suas bobagens consideradas agora humor sofisticado se tornariam inesquecíveis, frases históricas, dessas que sempre se recorrem para elevar o nível intelectual de uma conversa, se tornaria parâmetro para estudos psicológicos, complexo de Édipo, o mito de Don Juan, de Narciso, aceitamos, mas ele não, caracterizado na galeria dos exemplos imortais do comportamento humano não, ele não.
Resolvemos tomar a atitude mais racional e mais utilizada em todas as épocas: não fazer nada. Sempre tinha dado certo antes, não poderia ser, justo essa, a exceção.
E não foi. Depois de algumas tentativas de suicídio e de assassinato, por nós impedidas, chegou a notícia inesperada: Emília nunca esteve na Europa, passou seis meses no interior ajudando uma tia com problemas de saúde. Aquelas malditas palavras perderam todo o sentido, era uma mentira como a mentira de Emília. O sofisticado senso de humor de nosso amigo se perdeu junto com as explicações poliglotas de seus dotes, e rápida como a sua repentina fama foi a sua volta a categoria original: pessoa sem noção, nosso amigo, fonte das nossas risadas mais sinceras. Ele tentou se matar claro, mas impedimos, era nosso amigo, nosso amigo de volta, nosso amigo de sempre.
Para falar a verdade, Emília, apesar de nunca ter ido a Europa, tinha razão, no fundo, ele era tão nonsense que chegava a ser cool, mas que isso fique entre nós. Uma coisa ficou decidida, de viagem com a família na infância, a trabalho ou a qualquer outra coisa, mulher que pisou na Europa, que não chegue mais perto dele. Estou avisando, a gente não sabe do que seria capaz.
Guizzo
Enviado por Guizzo em 02/12/2006
Código do texto: T307824

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Sobre o autor
Guizzo
Santa Helena - Paraná - Brasil, 36 anos
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