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A caixa

     Ela gostava do Lennon. Era um disquinho pequenininho, com duas músicas. Lembro apenas de Imagine. Essa todo mundo lembra. Era um hino. Sabe aqueles disquinhos de vinil? Aqueles dos idos anos setenta? Ela sentava na sala e colocava na vitrola. Lembro que me sentava ao seu lado. Percebia que sua mente viajava. Na verdade na época não percebia nada disso, mas hoje entendo. Talvez por que tenho a idade dela naquela época. Não escuto Lennon, mas o comportamento é bem parecido. Não escuto Imagine, mas hoje me deu vontade de ouvir. Na verdade tenho aversão aquela cultura careta hippie. Mas quando ela colocava o disquinho, ficávamos ali ouvindo e viajando em nossas imaginações. Imaginações diversas, mas movidas pela mesma música. Imaginação de uma mulher de 35 anos e de uma criança de 9 anos. 1979. Em 1979, sentávamos eu e ela e ouvíamos juntos uma música que nos expulsava do cotidiano. Sim, éramos expulsos da repetição do dia-a-dia. Qual ritual.

     Fui até a casa de meu pai. Perguntei-lhe se tinha ainda aquele velho disquinho de vinil. Ele riu. Mostrou-me velhos objetos que formavam um grande edifício do passado. Ele tinha medo de cavucar aquela construção. Motivou-me. Aventurei-me. Eu e minha filha. Em busca do velho disquinho. Achamos diversas lembranças e divertidas histórias. Daria um belo volume. A foto antiga de uma mulher, chamou a atenção de minha filha. Achou-lhe parecida. Qual espelho. Via-se naquela foto como continuação. Como erupção de um vulcão que teima em não dormir. Medimos comparações e chegamos a conclusão que teria que ter força na vida.

     Exaustos e já céticos da existência daquele antigo vinil do jovem de Liverpool, achamos uma pequena caixa. "Zila". Apenas o nome dela. Era uma pequena caixa que várias vezes em minha infância tinha que subir até o quarto dela para trazer-lhe. Ali sempre tinha alguma coisa que era considerada importante para sua existência. Abrimos a pequena caixa. O pequeno Lennon ainda respirava com certa dificuldade. "É esse papai?" "Sim". Descemos até a sala da casa de meu pai, ele dormia sentado na poltrona assistindo aos chuviscos repetitivos da TV fora do ar. Colocamos o pequeno vinil na vitrola e sentamos, pai e filha, ouvimos. Ouvimos de novo. Nossas mentes se livraram da realidade. Duas sensações distanciadas pela idade, mas, de novo, a mesma música causando o mesmo efeito. 2005. Um homem de 35 anos viajava ao passado em busca da mulher que sempre lhe acompanhava naquela aventura musical. Uma menina de 9 anos que olhava assustada para a cara de seu pai, o vendo prestes a chorar de saudade.

Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 02/12/2006
Código do texto: T307937

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva