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A GRANDE GREVE DO PÓLO PETROQUÍMICO DE CAMAÇARI – UMA HISTÓRIA DO BRASIL (5) - FINAL

[Quando fomos liberados para sair das fábricas, seguimos diretamente para a Granja Novo Mundo, pertencente ao SINDIQUÍMICA e situada no Condomínio Busca Vida, no município de Camaçari – Ba., por transporte fornecido pelo sindicato, onde ficamos acampados por cerca de 15 dias, aguardando o desfecho do julgamento da legalidade da greve, que, diga-se de passagem foi julgada legal. Posteriormente recebemos da empresa cartas, telegramas e constantes telefonemas intimidando uns, demitindo, e ameaçando outros junto aos seus familiares. Depois que os primeiros 186 companheiros foram demitidos por “justa causa” no dia 4 de setembro de 1985 sem direito de entrar na fábrica para pegar os seus pertences pessoais, organizamos um “fundo de greve” onde juntávamos uma relativa quantia em dinheiro para sustentá-los. Ajudávamos também nas compras mensais de mercado para alguns companheiros. Eu pessoalmente pude fazer isso até o mês de janeiro de 1986 porque fui retaliado (demitido) no dia 11 de dezembro junto com os companheiros João de Deus e Clóvis Loureiro. Mas nesse intermédio já havia surgido a ABCQP para suprir as necessidades de todos os demitidos e receber as quantias do “fundo de greve”.]

A Associação Beneficente e Cultural dos Químicos e Petroquímicos – ABCQP, entidade com sede no próprio SINDIQUÍMICA-BAHIA, fundada no dia 26 de outubro de 1985, tendo como primeiro presidente o companheiro Alírio Santos Sousa, teve por função acolher e se responsabilizar pela sustentabilidade de todos aqueles que foram demitidos e tinham necessidade de uma compensação monetária para sua sobrevivência. Esta entidade foi magistralmente administrada e por isso alcançou um crescimento por excelência. Muitos companheiros demitidos também trabalhavam na ABCQP que possuía uma barraca na praia de Jaguaribe onde vendiam cervejas e tiragostos, uma oficina de silkscreen, xerox etc., e ainda inclusive, sempre que necessário  emprestavam dinheiro ao próprio SINDIQUIMICA sempre que solicitado. Os companheiros também colaboravam nos trabalhos do SINDIQUÍMICA.

A ABCQP inclusive administrava o espaço da Granja Novo Mundo, onde se realizavam eventos como congressos, reuniões, festas etc., ministrados por outros sindicatos de todo o país que solicitavam esse espaço.

Os companheiros da ABCQP inicialmente compilaram uma lista de 171 demitidos iniciais da greve, enfatizando aquele artigo 171 do Código Penal (obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento), caracterizando assim que os patrões estivessem se aproveitando do prejuízo alheio. Pelas informações do Arquivo Nacional (informações do SNI) inicialmente foram demitidos 186 petroquímicos tanto por “justa causa” como por demissões simples. E essas demissões foram sendo praticadas durante o ano de 1985.

A ABCQP com isso foi adquirindo tamanho e entrando em atrito conflituoso com alguns dirigentes do SINDIQUÍMICA que acreditavam estar essa entidade se tornando uma espécie de sindicato dentro do próprio sindicato e tudo fizeram para que ela gradativamente fosse perdendo espaço físico. Dessa forma a ABCQP foi sendo excluída aos poucos, ocupando os piores espaços dentro da sede do sindicato. Sem condições de continuar o trabalho de assistencialismo aos demitidos por motivo dos movimentos politicorreivindicatórios do Pólo Petroquímico de Camaçari, a ABCQP foi obrigada a encerrar os seus trabalhos no ano de 1990.

[Em 1993, o então Deputado Federal Jaques Wagner, que já pertenceu à categoria no setor de manutenção da empresa Nitrocarbono e tendo sido um dos dirigentes do SINDIQUÍMICA na época da greve, informou para nós, demitidos dos movimentos políticorreivindicatórios do Pólo Petroquímico de Camaçari, que havia sido criada uma Medida Provisória do Ministério do Trabalho criando uma Comissão Provisória de anistia. Eu, prontamente, fiz o meu requerimento, juntei documentos e os entreguei pessoalmente no seu escritório de Salvador, na rua da Mangueira. O próprio Jaques Wagner enviou o meu requerimento a Brasília. Essa Comissão Provisória anistiou três companheiros: Fernando Dórea, ex-dirigente sindical; Paulo Sérgio das Neves, ex-funcionário da COPENE e também ex-dirigente do sindical; Erisvaldo Manoel de Santana, ex-funcionário da NITROCARBONO.]

O SINDIQUÍMICA era praticamente a única entidade sindical na Bahia que se envolvia em plena ditadura com a política, não só local como nacional, com envolvimento em todos os problemas sociais, dando sempre total suporte àqueles políticos que retornavam do exílio como Luis Carlos Prestes, Waldir Pires e outros. O SINDIQUÍMICA também participou ativamente na Bahia da campanha do presidente Lula, não só para deputado, como para presidente do Brasil. O SINDIQUÍMICA fez história com a greve de 1985.

Esses demitidos conseguiram refazer suas vidas na informalidade, vivendo como excluídos da sociedade nacional. O Estado brasileiro, por intermédio dos empresários do Pólo Petroquímico de Camaçari e das entidades repressoras como DOI-CODI, DIVIN, SNI etc., pretendia castigá-los para o resto da vida, com a exclusão total, transformando-os em verdadeiros párias. Mas a partir daí, esses perseguidos políticos puderam concluir que havia uma possibilidade grande de crescimento (alternativa de vida) se vivessem na clandestinidade porque quem possuía inteligência e perspicácia poderia sobreviver à margem da sociedade, pois no mercado informal de trabalho ninguém pagava as altas taxas de impostos do país, formando assim uma sociedade marginal onde todo trabalho resultava em lucro pessoal.

Como é notório esses valentes lutadores demitidos, perseguidos do regime militar brasileiro, que forçaram todas as mudanças e uma nova ordem de relação interpessoal que hoje no tratamento dado hoje aos trabalhadores do Pólo de Camaçari e até em outras empresas dentro do nosso estado, passaram a ser ex-colegas, ex-amigos, esquecidos e à margem da sociedade brasileira, sempre à espera de uma reparação condigna.

Em conseqüência desses fatos que conservaram o SINDIQUÍMICA como uma entidade eminentemente política, foram surgindo políticos (vereadores, deputados, senadores, governador), todos oriundos desse sindicato. E no decorrer dos anos os demitidos de 1985 que tiveram a garra de parar o Pólo Petroquímico de Camaçari, o maior pólo petroquímico do Hemisfério Sul, foram sendo esquecidos, inclusive sendo considerados por alguns como restos de uma guerra.
Jose Bahiana
Enviado por Jose Bahiana em 13/07/2011
Reeditado em 22/07/2011
Código do texto: T3092759
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Sobre o autor
Jose Bahiana
Salvador - Bahia - Brasil, 61 anos
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