Aquilo que provamos quando estamos apaixonados talvez seja o nosso estado normal. O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre. Anton Tchekhov


Acabo de ler no facebook a seguinte frase: “Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...”. Eis a inspiração que precisava para escrever meu artigo deste mês da Revista Estilo Off. Queria algo diferente, que não fosse trágico, polêmico, nem tampouco melodramático e enjoativo de se ler.

Apesar de ser dezembro, também não queria algo focalizado na temática natalina, que sempre procuramos dissertar nesta época do ano. Mas desejava alguma coisa que remetesse, de certa forma, a estes momentos de reflexão, que são o Natal e o Ano Novo.

Decidi então escrever sobre a paixão, mas não somente a paixão relatada nos livros de literatura e impregnada na mente das pessoas que gostam de outras. Quero tratar da paixão como algo mais corriqueiro, algo que está presente em nossas vidas, mesmo sem o personagem do outro presente nelas.
Apaixonar-se por alguém ou por algo, é inerente a qualquer ser humano em alguma fase de sua existência, quiçá por toda nossa vida. Por isso as pessoas sempre têm a necessidade de apaixonar-se, nem que seja por si mesmas.

Sentimos diariamente a vontade de ter alguém ao nosso lado, de possuir determinado objeto, de alcançar certa posição, tudo isso movido pela paixão de viver intensamente um dia após o outro. A paixão pode ultrapassar barreiras sociais, diferenças de formação, idades e gêneros. Estar apaixonado significa estar vivo, em todos os âmbitos.

Um dia desses postei uma frase nas minhas redes sociais onde eu dizia: “Eu sou tão inteligente, tão inteligente, mas tão inteligente, que às vezes nem eu me suporto.” Este lapso de “modéstia” exacerbada, está completamente atrelado ao meu momento de vida presente. Estou apaixonado, viciado e feliz comigo. Chega um tempo que descobrimos que apaixonar-se por si, é indispensável para a sua estada neste universo de amores e desamores. Se assim não fizermos, não conseguiremos sobreviver aos percalços que Deus nos propõe, crendo eu, que para aprendermos a lidar com o todo.

Seja no sofrimento do rompimento, ou por uma traição, ou até mesmo por uma discussão sem grande importância, é inevitável a tristeza, se você realmente gosta da outra pessoa.

A paixão pressupõe respeito. Respeito ao outro, aos seus sentimentos, aos seus vícios, as suas necessidades, mas antes disso, a paixão pressupõe respeito a si próprio. Muitas pessoas esquecem que para este sentimento existir, precisa-se tanto delas mesmas quanto do outro (alguém ou algo). É um sentimento dúplice.
Neste mundo do “descartável”, onde as pessoas esbravejam muito pelos quatro cantos que estão apaixonadas pelas outras, sem sequer raciocinar para o significado exato deste termo, ou seja, o dizer corresponde a uma coisa e o sentir a outra completamente diferente, não se tem a noção verdadeira do que é este sentimento.

A necessidade de apaixonar-se sempre existiu, no entanto, devido ao tradicionalismo social onde há uma submissão ao outrem e estar apaixonado pressupunha estar assim por alguém, na figura humana, na maioria das vezes não se pensa na paixão existencial do nosso cotidiano.
As ações de comprar, fazer uma academia, estudar, dançar, ouvir música, enfim, todas as ações praticadas são movidas por uma paixão.

Muitas pessoas são incoerentes com suas ações, que normalmente não justificam suas palavras, provocando assim o famoso ditado: “Faça o que digo, mas não faça o que eu faço”. As pessoas apregoam um amor ao próximo, mas guardam para si rancores, raivas e às vezes até ódio.

Precisa-se de seres humanos mais apaixonados verdadeiramente. Seres que digam e praticam suas palavras proferidas diariamente. Seres que não façam de suas vidas um best-seller de frases, citações e textos que não condizem com sua existência diária, mas que façam das frases, citações e filosofias de vida existentes, a sua prática.

Pessoas que reproduzam nas suas ações, tudo aquilo que disseminam diariamente nas suas redes sociais de forma escrita e na sua vida cotidiana de forma oral ou através de expressões corporais.
Precisa-se URGENTEMENTE de pessoas apaixonáveis, pois de uma coisa todos temos certeza, um belo dia se morre, e já não haverá mais a oportunidade de se apaixonar neste universo de apaixonados.

*Texto publicado na Revista Estilo Off edição de Dezembro/2011