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OS SELVAGENS DAS MOTOCICLETAS

Não, não vou falar do Marlon Brando e nem do clássico da década de 50, The Wild One. Falarei de outros selvagens, selvagens mesmo, que pilotam velozes, barulhentas e insuportáveis motocicletas pelas ruas da cidade, como se estivessem sempre indo salvar a vida de alguém muito querido. Sim, porque não circulam apenas, voam, e voam de maneira selvagem e estúpida, de maneira a deixarem seu rastro bem marcado na maior parte das vezes, arrancando retrovisores, cortando a frente de ônibus, quase atropelando pedestres, xingando taxistas e motoristas de carros. Furiosos, pensam serem os donos da rua.
É claro que não estou aqui a generalizar, porque penso ser burra toda a generalização. Há obviamente centenas de rapazes (e moças) que conduzem motos que  utilizam de maneira civilizada e como meio de locomoção diária para o trabalho ou outras finalidades. Mas, leitor, não vamos ser hipócritas, a grande maioria dos motoqueiros pensa mesmo que é deles a cidade toda, e que podem fazer as barbaridades que quiserem pelas ruas, saindo sempre impunes, porque fazem e saem correndo, covardes que são. Ou, de vez em quando, acabam sendo atropelados e mortos, geralmente em razão de suas imprudências. Ninguém é perfeito. Nem mesmo os intocáveis e poderosos motoqueiros. Que me jogue na cara várias pedras quem nunca teve problemas no trânsito com um motoqueiro...!
Só para citar dois exemplos recentes, na semana passada, um deles teve um acesso histérico em meio a um tráfego carregado e bateu com força no capô do meu carro, somente porque eu tentava mudar de faixa a estava a atrapalhar a passagem de “Sua Majestade”. Alguns dias depois, um outro quase agrediu fisicamente um taxista na minha frente. O homem, calmo e simpático, tentava, assim como eu, dentro das regras de trânsito mudar de faixa, mas um dos reis motoqueiros parou ao lado de sua janela e soltou o verbo, dizendo os mais cabeludos palavrões que se possa imaginar. O pobre motorista de táxi levou até um susto, as suas feições eram de susto, as feições de quem se sente ameaçado, agredido moralmente, sem ter feito nada de errado. Raiva e revolta. Raiva e revolta por estar ali, como o motoqueiro, enfrentando aquele trânsito infernal, certamente com a mesma pressa, e, ainda assim, estava calmo e tentando seguir as boas regras de civilidade, quando é agredido, sem mais nem menos, por um desconhecido, membro da “Sociedade da Motoca”.
Isso mesmo. Acabo de concluir que é uma verdadeira sociedade, uma sociedade má e mesquinha, que só quer agredir e correr, a qualuer preço. Uma sociedade do mal. Uma micro sociedade dentro da macro, mais uma micro sociedade, mais um “clube social”, uma congregação de pessoas dentro deste doido mundo que sobrevive porque existem os clubes que agrupam e também excluem. Que incluem aqueles sujeitos que enquandram-se nos requisitos do clube. E que excluem e, no caso da Sociedade da Motoca, aqueles que atrapalham suas vidas. Requisito número um da Sociedade da Motoca: ser selvagem. Não selvagem como Brando, um selvagem um pouco rebelde, mas cheio do charme da década de 50, mas selvagens frios, furiosos, frustrados e devastados pela louca vida da metrópole. Selvagens da selva mesmo. Mas da selva de pedra. Dura e fria. Que acaba mesmo ferindo e matando.
Clarice Casado
Enviado por Clarice Casado em 03/02/2005
Código do texto: T3404
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Sobre a autora
Clarice Casado
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
16 textos (4912 leituras)
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