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E MELHOROU MESMO...

Havia uma tensão no ar e não era uma tensão nova. Há dias sentia-se tenso. Meio amargurado, com um quê de frustração beirando a revolta. Para piorar, o dia estava mais quente do que o habitual. "Por que será que não chove?". Estava sentado em sua cadeira de couro vermelha. Velha. Querendo rasgar nos pontos onde a esponja interna ainda não havia se libertado. Não podia nem dizer que era confortável. A cadeira, descansando atrás de sua mesa de mogno, jazia silenciosa, com ele sentado, descansando. "Descansando do quê?". Havia passado mais de três meses desde que tivera a chance de pegar um grande caso: descobrir o nome do amante da cunhada do Sr. Monteiro. No caso dele, era um grande caso. E, afinal, descobrira. Era Joel.

Apesar das dificuldades momentâneas da sua agência de detetives particulares, sempre conseguira dar a volta nas despesas e ainda sobrava para pagar o aluguel do quarto e sala, no subúrbio da cidade. Na agência, só ele trabalhava. Mesmo assim, gostava de ver o plural ressaltado na placa de madeira do lado de fora da porta: Fonseca - Detetives Particulares. Dava a impressão de que várias pessoas estavam dispostas e disponíveis para resolver qualquer que fosse o caso, a pendência, o problema. "Dá um ar de grandeza!".

Mas, já haviam se passado três meses - "Três meses!" - e as despesas continuavam. Nenhum caso. Quase se arrependeu de ter mandado embora o garoto que lhe havia procurado no mês passado, querendo contratar os seus serviços para descobrir o gabarito da prova final de sociologia do colégio Aparecida de Santana, no centro da cidade.

- Não trabalhamos desse jeito!
- Mas, se eu não passar nessa prova, meu pai me mata!
- Então estuda garoto, estuda...
- Sociologia?

Lembrando agora, ficou ainda mais deprimido. Como alguém como ele, poderia dar uma conselho daqueles? "Não passei do primeiro semestre na faculdade de direito e fico dizendo que o melhor é estudar...". Era esperto, observador, perfil de detetive. Mas estava longe de ser alguém que se dedica aos estudos formais. Preferia estudar as pessoas. Suas falhas, seus medos, suas saídas furtivas no meio da tarde. Como as saídas da cunhada do Sr. Monteiro.

A pequena sala era escura e no meio da tarde, a solidão parecia ainda mais pesada.

Quando tudo parecia perdido, o telefone interrompeu o silêncio. Chegou a suar frio. Quase não acreditou. Esperou que tocasse mais duas vezes e, limpando a garganta, atendeu com a voz grave:

- Fonseca, detetives particulares, boa tarde!
- Alô?  Fernandinho?
- Não, minha senhora. Aqui é da agência de detetives Fonseca.
- Oi Fernandinho!  É a vó!  Tudo bem, querido?
- A senhora me desculpe, mas acho que se enganou...
- Eu tô bem, meu querido!  Dói um pouco as costas e os pés, mas só quando eu caminho.  Sabe como é, desde que o teu avô morreu, não tenho mais saído de casa...
- Minha senhora....
- E a Laurinha, como está?  Não vai me dizer que já mudou de namorada de novo...  Eu não acredito, meu filho!  Todo mês, uma diferente da outra!  É muita energia, hein Fernandinho?!
- Eu sinto muito, mas a senhora ligou para o número errado...
- Esse mundo tá muito mudado mesmo...  Mas, você é jovem.  Tem mais é que aproveitar.

Ele desistiu...

- A tua tia tá bem!  Tá aqui do meu lado preparando o chá.  Você não quer vir tomar um chazinho aqui com a gente?  Pode trazer a Clarinha.  Você sabe que eu gosto muito daquela menina.  Sempre atenciosa, sempre ouvindo o que a gente fala...  O quê Fernandinho? Não tô conseguindo te ouvir...
- Nada não, vó... Não falei nada.
- Ah...  Sabe que a Marilda, minha vizinha, me falou que o Olegário é o novo síndico aqui do meu prédio.  Você conhece ele, né Fernandinho...?  Aquele do chapéu azul...
- Sei vó, sei...
- Pois é, querido.  Eu não fui na reunião de condomínio.  Sabe como é, desde que o teu avô morreu...  A tua tia vai me levar no hospital prá fazer uns exames amanhã.  Mas não é nada grave.  Coisas da idade...  Não precisa se preocupar, viu?

Com a voz descansada e a mente aceitando a inocência, decidiu desligar.

- Vó, eu preciso ir agora. Amanhã a gente conversa... Pode ser?
- Bom, meu filho.  Eu preciso desligar agora.  Tenho um monte de coisas prá fazer.  A tua tia trouxe mais fios de lã prá eu enrolar...  Lá do Clube de Mães, sabe...?
- Sei vó, sei...
- Um beijo, meu neto!  Deus te abençoe, viu?  Manda um beijo prá Marcinha.  Como é doce aquela menina...

Largou o telefone no gancho com um sorriso resignado nos lábios. "E eu achando que nada poderia melhorar o meu dia...".
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 14/07/2005
Reeditado em 14/07/2005
Código do texto: T34205

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette