PRIMEIRAS TRAQUINAGENS (continuação)

O texto a seguir é extraído de "Crônicas da Vida Inteira", livro inédito sobre fatos de minha vida, adaptado para o Recanto das Letras.

PRIMEIRAS TRAQUINAGENS (continuação)

Diante da enxurrada de brinquedos que as crianças de hoje ganham a todo instante, tenho ouvido pessoas autocompassivas se queixarem de seu tempo de infância. “Coitado de mim! No meu tempo de criança não havia brinquedos assim bonitos”.

É bem verdade que nos tempos idos não os havia em toda essa variedade quase infinita, cada um mais atraente e sofisticado que outro. É verdade também que as crianças de antigamente não ganhavam brinquedos a torto e a direito como hoje. Mas não é verdade que eram coitadinhas, isso não! Eu pelo menos não acho que fui uma criança infeliz. E se eu tivesse que voltar à minha infância, gostaria que fosse igualzinha àquela que tive.

Como era gostoso! Dois sabugos de milho, uma casca de palmito e duas rodelas de batata ou de aipim eram materiais suficientes pra fazer um carrinho de boi e construir um mundo inteiro de fantasias. Não importava que, ao menor descuido, um porco viesse devorar as rodas do meu carro. É claro que eu ficava brabo e perseguia-o de varadas e chutes, mas logo fazia outro par de rodas e continuava o brinquedo.

Um dia foi uma galinha carijó que se engraçou no meu brinquedo.

A mana tinha-me chamado pra fazer sei lá mais o quê, um serviço à toa pra ela, e, quando eu voltei ao meu imaginário caminho da roça, a dita galinha fugiu, levando no bico minha junta de bois, carrinho e tudo. Ah, fiquei entinhecado com ela! Juntei um pedaço de pau e zás! Acertei bem na moleira da atrevida, que embolou na hora e se pôs a espernear. Já me vi em apuros. Olhei pra um lado e outro, ninguém por perto. Por sorte eu já tinha visto os mais velhos fazerem isso e, sem perda de tempo, fiz o mesmo: Juntei-a depressa, corri pra calha e despejei água fria na cabeça dela e esperei. Não demorou, ela se levantou meio tonta, cambaleando como se tivesse bebido uns tragos, e saiu correndo. Assim eu me livrei de uma surra. Nem me importei ao ver a roda do carrinho toda beliscada.

Aos domingos os primos, que moravam um pouco acima, vinham brincar conosco, ou nós íamos à casa deles. E foram eles quem, certo dia, nos receberam com uma novidade. Em vez de sabugos pra fazer as vezes de boizinhos, cangaram uma juntinha de leitões. Fizeram uma canga de embira, madeira mole e abundante por aqueles morros, com canzis, tamoeiro, brocha e tudo como os de verdade.

Mas que trabalheira! Os bichinhos não paravam quietos. Como não tinham chifres, não dava de ajoujá-los, e eles se batiam, deitavam e grunhiam num protesto danado. É muito certa a expressão “O fulano incomoda mais que porco na corda”. Mas a farra foi grande. A tarde passou num tapa.

— Que pena que nóis não temo dois leitãozinho pra brincá, né, Paulo! — lamentei em casa no dia seguinte.

— Ah, incomodo muito. ‘Tá louco! Eu não quero sabê daquilo mais não!

— Que tal duas galinha? — propus.

— Hum, hum. Como é que vais cangá duas galinha, rapaiz?

— Cangá não, mais a gente pode amarrá. Fizemo um tope de dois laço na ponta do cabeçalho e passemo um laço no pescoço de cada uma — expliquei .

O Paulo pensou um pouco e concordou.

— É... Ansim dá certo.

E pusemo-nos ao trabalho. Como os carrinhos por nós feitos até ali eram muito pequenos, tínhamos que construir um maior, mais a jeito. Depois de muita procura, achamos um par de rodas, restos de uma carretilha abandonada por um dos irmãos mais velhos. Faltava, porém, o mais difícil: a mesa do carro. E não tínhamos como consegui-la, pois a única ferramenta a que tínhamos acesso às escondidas nessa idade era o facão de picar trato, que ficava sempre sobre o monte de batatas.

— Sabe o quê? Então vamo fazê um carretão, pronto — decidiu-se o Paulo.

Foi o que fizemos com pouca demora. Bastou arranjar dois pedaços roliços de madeira nos comprimentos desejados. Com o dito facão, o Paulo, mais jeitoso, afinou as pontas do que seria o eixo até caber livremente no furo das rodas. Depois disso fizemos uma mossa pouco antes da extremidade do cabo e outra no meio do eixo, a fim de que não se desprendessem com o afrouxamento do barbante. Em seguida amarramos as duas partes bem fortemente, e estava feito o nosso carretão. Ao experimentá-lo, vimos que as rodas caíam por falta das chavetas. O que fazer? Prego e martelo... Nem pensar.

— Já sei. Vamo rachá os topo, metemo uma cavilha na rachadura em vez da chaveta e pronto — explicou o Paulo, pondo-se a executá-lo imediatamente com o facão e um pedaço de madeira por martelo.

Enquanto isso eu saí à procura de cavacos de madeira que servissem pro que queríamos. Lembrando que por aqueles dias papai tinha acabado de fazer um carro de boi lá no engenho de açúcar, corri lá.

— Pronto. Agora sim! — exclamou o Paulo satisfeito pouco depois.

E saímos, já munidos de grãos de milho, à procura do que seria nossa junta de bois. Dois frangos bicavam a grama logo adiante. Bastou um prrrr-pi-pi-pi, e os dois vieram correndo em nossa direção. Eu grudunhei um, e Paulo o outro. Instantes depois os dois frangos, atrelados ao carretão, se rebelavam contra a nova situação, e não havia jeito de fazer os dois entrar no país-do-faz-de-contas conosco. Eram frangos e muito frangos pra aceitarem ser de outra espécie animal que não a que lhes fora dada pela natureza. Onde já se viu! Dentro de poucos meses seriam galos feitos, donos do terreiro em meio àquela galinhada toda, pra que querer ser outra coisa?

De repente um deles safou-se e saiu correndo aos pinotes, levando de rasto o companheiro e o carretão. Uns quinze metros adiante ele alçou voo, tentando vencer a altura de uma cerca, mas não conseguiu levantar seus penduricalhos e acabou dependurado, ele de um lado e o companheiro do outro. Se não tivéssemos socorrido a tempo, os dois teriam morrido enforcados. Ainda bem que a mamãe não viu essa nossa molecagem, senão teríamos entrado na pá novamente.

Entrado na pá? Como assim? É. Na pá, sim senhor! Em vez de chinelo, cinta e outros instrumentos corretivos, mamãe tinha uma pazinha de madeira, dessas de mexer polenta, guardada especialmente só pra esse fim, ali pendurada num prego à parede. Era só dizer que pé de galinha não dava uma janta, e a pá entrava em serviço, amaciando o couro da bunda, como me aconteceu certa vez.

Os hábitos alimentares na roça eram, e creio que são hoje ainda, diferentes dos da cidade. Ao levantar pela manhã, o desjejum era um café com leite reforçado com pão de milho, rosca de polvilho misturado com doces caseiros, nata ou coalhada. Lá pelas nove ou dez horas era levado o almoço na roça, composto mais ou menos dos mesmos alimentos do café da manhã. Ao meio-dia, era servida a janta, composta basicamente de comidas fortes: pirão de feijão com farinha de mandioca, carne de boi ou de porco, ovos. O arroz, a carne de galinha, o pão de trigo eram servidos mais aos domingos e dias-santos, nos dias de descanso, por serem comidas fracas.

Pois bem. Nesse dia era mamãe quem preparava nosso prato da janta. Uns pediam o pirão bem escaldado, outros bem cru. Mas eu nessas alturas não sabia qual era um, qual era o outro e me decidi pelo adjetivo mais bonito.

— Ah eu quero o meu bem escardado.

Quando, porém, me vi diante daquela pratada de pirão que mais parecia uma bola de grude escuro, foi que eu percebi que tinha errado no pedido e protestei e empurrei com o pé o prato pra longe.

— Ai, não! Eu queria bem cru!

Pra quê! Mamãe, que decerto estava num daqueles maus dias, já me olhou atravessado.

— Ah, é, bem cru, é!? ‘Pera aí, que eu já te mostro...

A pazinha foi trazida sem demora, e eu tive que comer todo o pirão com a bunda chiando. Foi assim, na pedagogia da pá, que eu aprendi a diferença entre pirão cru e escaldado.