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Texto

Desvalorização da cultura

     Observando a enormidade de textos onde a palavra Deus é explorada reservo-me no direito de declarar o seguinte: Deus é uma epidemia ilusória no terreno da literatura. As mais das vezes sem criatividade, mas com gritante demonstração de carência afetiva. Esses textos revelam o péssimo nível criativo.  Quem pode ser criativo com Deus na alma? Tamanho alter ego de peso obsedante.
     A criatividade humana nasce quando abandonamos as imagens primitivas da infância.  Imagens que servem para fortalecer o processo de constituição da identidade infantil diante do gigantismo do mundo aterrorizante em que vivemos.  O mundo real sempre produziu a dor para se valer dela como poder. A inversão é bem recente e Deus tem muito pouco a ver com isso para quem tem viva a memória histórica dos massacres, torturas e guerras crudelíssimas de ordem religiosa.
    Sabemos todos que a grande evolução humana do pensamento ocorre quando a igreja e a religião encontram-se separadas do Estado.  Atualmente ainda temos péssimos exemplos dessa conjunção entre as duas esferas de poder, e é o pior caminho para a liberdade individual. Neste ambiente de literatura observo a má qualidade das redações, diante da abundância de escritos onde a palavra Deus quer conquistar ovelhinhas em fila para o consolo do abismo. Estamos diante de um quadro assustador de falta de imaginação dada a mono funcionalidade do monoteísmo reinante sobre  a incapacidade de analisar o mundo real em que vivemos. O escapismo é dos melhores. É quadro de grande pobreza conceitual e crítica. Estão crentes de que a simples invocação divina já lhes confere algo que vale a pena ter o nome de literatura.
    A liberdade de expressão gerou certa participação faminta desses autores em busca da identidade do escritor, pouquíssimos da obra.  Na verdade vivemos um ciclo artístico em que vale mais o autor do que propriamente a obra porque inexiste valorização da cultura e da arte no Brasil.  O que temos é a desvalorização da cultura e da arte porque atribuímos infantilmente à produção artística e cultural ao vento subjetivo do dom.  Dom é grátis.  Essa mistura vazia, perpetuada na ilusão, imiscui a obra vasta e suada na mais completa falta de sentido. O artista é aquele que venceu o ciclo da desvalia através da máscara carismática que começa a vender incrivelmente o lugar comum.  Seja na política, seja na literatura.
    Para tanto a literatura brasileira é o esporte da alienação.
    No fundo ignoramos o sentido que devemos dar a uma obra sensível. Até o elogio permanece como desprezo. O elogio acelera a obscuridade da obra sufocando-a para sempre na grande montanha coberta de tolices graças à velocidade meteórica das publicações. Qualquer obra real já passou. O que importa é preencher a grande lingüiça vazia com o fantasma das ilusões. A rapidez é aliada da desvalorização.  A rapidez e a metáfora que consome tudo.  Faça uma música genial e espere alguém exclamar: Pô! Você só tem essa canção? Ou ainda: eis um poema genial,  onde estão os outros?
     Logo em seguida temos o problema da reflexão que se tornou repulsiva porque não possui a rapidez das imagens celebradas como realidade nos dias atuais. Para o certificado derrama-se toda a sorte de divindades no caldo do derramamento emocional.  Elas protegem da aceleração máxima com que devassamos os sentidos através da máquina de produção cultural. Ocorre o mesmo com a política: noventa por cento dos problemas políticos de natureza social são os mesmos disfarçados de novas equipes de especulação. Quanto maior a complexidade mais fácil para aumento do custo social para glória da arrecadação.  Deus tudo oculta. Finalmente ganha o falso firmamento literário onde  todo autor é mera sensação acima da metafísica.

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Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 25/05/2012
Código do texto: T3687431
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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 51 anos
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