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MATO OU MORRO



Eu acho que tinha uns três anos de idade. Meu pai era o maquinista e minha mãe era uma ou outra puta da estação. Nasci sabe-se lá onde, só me lembro do Zé que me criou e dos irmãos de criação. Cada um tinha tido uma mãe e o mesmo pai, o Zé. Recordo-me das surras do meu pai e dos meus irmãos mais velhos, era só eu não levar dinheiro (isso sempre acontecia). Eu só tinha três anos e me cobravam uma boa engraxada nos sapatos como se eu tivesse dez anos. O pior mesmo eram as surras dos guardas da estação, porque eles me chutavam sem motivo e eu nem estava pedindo nada. Só queria trabalhar engraxando os sapatos dos “tios” que vinham no trem. Tinha também aquelas moças que mandavam levar dinheiro no morro e trazer bagulho, para elas e para os homens delas. Que eu me lembre, brincava de andar na porta de trem, de pular a linha correndo e de apanhar muito. As vezes todo mundo ia pra praia, meu pai, algumas mulheres com seus filhos e meus irmãos. Era uma garotada só e o legal é que o pessoal da cidade tinha respeito com a gente, respeito ou medo, sei lá, mas nem encostavam (acho que pensavam que a gente iria rouba-los). Tinha também a cola que era bom demais de cheirar. Esquecia de tudo. Mas o pai mandou a gente roubar a velhas que vinham no trem. Era legal, quando ia ver, a gente já tava lá na frente correndo (eu não tinha pena não). Aquele pessoal todo, só me olhava de lado, me batiam e me xingavam. Agora, não podiam comigo na estação, eu corria mais que eles. Fui crescendo assim, apanhando aqui e começando a bater ali. Fui batendo e aumentando minha raiva com esse mundo que nunca me ajudou. Pra mim tanto faz, pode ser velha, nova, rico pobre, grávida ou freira..., “dançou” eu pego mesmo. Esse mundo é dos espertos e nem na cadeia vão me parar, só me matando. Assim mesmo, lá na estação já tem mais de trinta com três anos. Me prende aqui, me solto ali e mato com mais vontade. E ainda sou o herói da garotada da estação, o “bicho” que mais mata gente, essa gente que pensa que vai se livrar de nós, inventando cadeia ou pena de morte. Acho que já nasci morto e na cadeia, vou é criar meu grupo, um comando qualquer.
Pra falar a verdade,só não esculacho com a dona “zinha” do café. Ela sempre me deu pão e dizia que eu era o capetinha do coração dela. Até me deu um beijo um dia. Dona "zinha" é sangue bom, essa não merece morrer...Bem, já escrevi demais, e também ta na hora de tomar sol, e o pessoal aqui da cadeia não dá mole. O que é deles ta guardado..., eu fujo, mato ou morro....
Jose Carlos Cavalcante
Enviado por Jose Carlos Cavalcante em 26/07/2005
Código do texto: T37845
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Sobre o autor
Jose Carlos Cavalcante
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
730 textos (54065 leituras)
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Jose Carlos Cavalcante