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O DIABO ME LIGOU HOJE

O diabo me ligou hoje. Colocamos as novidades em dia. Fazia tempo que não nos falávamos. Vida agitada essa nossa. Eu trabalho demais. E o diabo também. Eu sempre me preocupando com tudo. E ele sempre ocupado em garantir que eu o faça. Eu sempre remoendo pensamentos do que aconteceu no passado. E ele sempre ocupado em garantir que esses pensamentos atormentem o meu presente. Tendo ambos tanto trabalho, é difícil arranjar tempo para conversar. Mas quando temos a chance, nunca terminamos a conversa achando que faltou alguma coisa. Parece que, de tempos em tempos, renovamos nossos laços. Não me entenda mal... Não são laços afetivos (mesmo porque, o diabo não sabe o que é isso... afeição). São laços frios e profissionais. E também é trabalho dele manter essa ligação. Por isso é que ele me ligou.

Aproveitei e perguntei:
"Por que todos acham que a culpa é sempre sua?"
E ele respondeu:
"Não sei. Suponho que seja mais fácil."

Divagamos sobre muitas coisas... Sobre as mazelas da humanidade, principalmente. Sobre aquele velho atrito mal resolvido desde que o Chefe o expulsou do reino celeste (ele não se convence e ainda acha que, usando suas palavras, "a coisa foi pessoal"). Sobre a eterna guerra entre o bem e o mal e entre os supostos anjos e os endiabrados demônios. Sobre as piadas que fazem dele em alguns filmes e sobre a escolha dos atores que o interpretam. Sobre o terrorismo na Europa. Sobre a última moda nos jardins da perdição: couro avermelhado e botas de bico fino. Sobre a fome no mundo. Sobre a sua intenção de abrir novas filiais do inferno, além da Casa Branca. Sobre colegas de trabalho. E sobre outras coisas pelas quais ele claramente assume a responsabilidade e que afetam o meu dia.

Entre uma divagação e outra, conversamos sobre a limitação da nossa alma enquanto estamos presos nesse corpo. Ele, é claro, não tem essa limitação. Por isso, sem ter a intenção (disso eu tenho certeza!) ele me iluminou com uma frase que agora compartilho:

"Você faz um plano para a sua vida e o Chefe faz outro."

Essa máxima diabólica iluminou o meu dia no sentido de "É isso!". Ele nem percebeu que com essa frase retumbando no meu cérebro, seus poderes de influência sobre a minha pobre mente diminuíram consideravelmente.

"É claro! Se há um outro plano para a minha vida, bem diferente daquele que eu havia traçado (considerando tudo o que tem acontecido comigo!), por que devo me angustiar tanto? Por que simplesmente não me convenço de que o passado é apenas o passado e que já passou? O futuro? Não existe! E, se existe, pertence ao Chefe! O que eu tenho é apenas o presente! O que está acontecendo agora! O dia de hoje! Então, por que me preocupar tanto? Vou apenas viver e ver o que acontece! Chega de me preocupar tanto e tentar entender tudo sobre tudo! Chega de perder oportunidades por medo ou por achar que o que pode acontecer vai contra o que é certo! O que é certo afinal? Chega de deixar o tempo passar e ficar só com pensamentos do tipo: putz! bem que eu poderia ter feito diferente... Chega! O plano não é meu! A responsabilidade não é minha! Seja o que o Chefe quiser! Vou apenas me cuidar! Usar camisinha, não dormir com a cabeça molhada, não comer tanta fritura, trabalhar somente na medida certa, olhar para os dois lados na avenida!"

É claro que todos esses pensamentos só chegaram até o meu nível consciente bem depois de eu ter desligado o telefone. E, é claro, que o diabo não ficou sabendo dessas minhas conclusões que, definitivamente, irão alterar nosso relacionamento para sempre. Não que os "laços" serão cortados por completo, porque ninguém é perfeito (que o diabo não me ouça!), mas vou manter uma certa "distância estratégica". Sem cortar relações. Mesmo porque, sempre me disseram que é melhor ser amigo dele... E, intuitivamente, disso eu já sabia.

(every single one of us carries a little devil inside)
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 28/07/2005
Reeditado em 29/07/2005
Código do texto: T38467

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette