MOSCA-VAREJEIRA

Zoando e zoando.

Ontem vi e ouvi em volta à minha testa uma mosca-varejeira daquelas enormes, sonoras e verdes, do tipo das que abundam nos açougues de assepsia duvidosa. O artrópode chegou contornando círculos ao cimo de minhas telhas capilares, num feito similar àqueles balões dirigíveis da Goodyear que volteiam o cume da Torre Eiffel, do Empire States Building e outros pontos turísticos famosos. O moscardo meio que parecia querer confundir minha atenção para dissimular algum futuro bote ou picada. Varejeiras em regra são muito agressivas. Mas a mutuca logo se apercebeu que nada haveria para ela na minha cabeça, pois eu estava preparado contra o ataque e desviava até com certa facilidade o cocuruto das suas investidas. Foi quando ela seguiu o caminho da sua busca tresloucada. O invertebrado foi descansar a bundinha gorda na pétala duma rosa úmida e rubra do solitário de cristal da sala. Na flor ela só agüentou um ínfimo tempo, parcos segundos, como não houvesse acordo possível entre uma índole “mosqueteira” (existiria um adjetivo para designar sobre o que é “relativo à mosca”?) e o perfume doce das rosas. Levantou novo vôo raso num plano recortado e decidido de espaço, atravessou os batentes da janela escancarada da cozinha e pousou despachada para poder esfregar e lamber as patinhas (aquele característico gesticular, mistura de louva-a-deus com lava-mãos de Pilatos, um atritar típico das moscas) bem em cima duma bosta marrom, mole, farta, quente e fresca de cachorro depositada na terra roxa dos fundos do quintal. Por ali ficou ficando e foi mais e mais ficando, enquanto botava pela cloaca (será que mosca tem esse aparelho?) os seus tantos e quantos ovinhos melecados. Pois acabei de sair agorinha para o quintal e constatei: a varejeira ainda está por lá zumbindo até hoje ao redor da merda a cuidar das ovíparas crias. Veja o que é a natureza: as moscas, para os sentidos de preservação instintivos dos homens, como que já nascem horríveis e asquerosas do interior dos seios das bostas (que fazem as vezes d’uma espécie fétida de nave-mãe), mas jamais nascerão do ventre das rosas, mesmo daquelas em franca decomposição. Foi então que percebi que, como na criação imaginativa, beleza e podridão não amalgamam suas naturezas com o fito de realizar uma concepção. É preciso que os elementos sejam estranhamente semelhantes - como numa antiga lei de alquimia secreta - para se locupletarem, como no caso das fezes e das terríveis moscas-varejeiras (que para piorar o quadro também põem seus ovos em abertas feridas pustulentas e carne morta). Acho que também foi por causa disso que me resolvi a escrever essa observação em prosa. Assim como as moscas-varejeiras definitivamente não formam par criativo com as flores, menos ainda o farão com as poesias.