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O velho casarão



Apesar de tantos anos já serem passados, jamais poderia esquecer os belos momentos vividos naquela aconchegante casa em estilo francês, na Rua Benjamim Constant 126, na graciosa cidade de Assis, na época chamada de “a Princesinha da Alta Sorocabana”.
Ela era toda de madeira, rodeada de jardins onde floriam rosas, margaridas, cravos e damas da noite. Mas o que eu gostava realmente, era o cheiro da malva, orgulho da Vovó Hilda e do vovô Chiquinho. Sempre eu trazia uma delas acomodada no meio livro de missa.
No fundo e na lateral cresciam frondosas as mangueiras e as goiabeiras quase centenárias, ladeadas por hortaliças sempre muito bem cuidadas pelo tio Gilberto. No meio delas, o velho tanque e um quarador de roupas de zinco. Mais atrás, um grande galpão, pouco iluminado, onde eu me perdia em velhos guardados de família, grandes obras literárias, muitos livros que ensinavam o “francês”, artigos recortados de revista, a maioria sobre aviação e quase todas as revistas ” O Cruzeiro”.
Ladeando o casarão, um muro baixo de cimento e madeiras pintadas de marrom. Um pequeno portão e uma escada larga, de poucos degraus se antecipavam ao arejado “alpendre”, com cadeiras de madeira e vasos de samambaia, lugar de descanso e bate-papos. Era ali que, após o almoço, meus avós se sentavam, cumprimentavam todos os “passantes”, comentavam os últimos acontecimentos e ficavam sabendo de nascimentos, mortes, casamentos.
A sala de visitas, com poltronas em marrom, vermelho e creme, era separada da sala de jantar por colunas e cortinas. Esse era o palco onde eu declamava e cantava para todas os amigos que ali chegavam.
Ao lado, o quarto dos meus avós, muito amplo e arejado, com móveis entalhados em madeira escura combinada com granito. Seguiam-se mais três amplos dormitórios, modestamente decorados com móveis antigos, relicário de família.
A sala de jantar acomodava, além da enorme mesa onde sempre cabia mais um, uma mesinha auxiliar, uma cristaleira baixa onde se encontrava o famoso “rádio”, um armário grande para louças e, ao canto, a velha escrivaninha do vovô, quase sempre fechada. Nela estava a minha fascinação: a máquina de escrever.
Após a sala, o único e grande banheiro, com banheira e tudo o mais. Logo em seguida, a cozinha, grande, com muitas prateiras, panelas expostas, tachos enormes onde vovó Hilda e as tias Nadir e Dinar faziam quitutes e muitos doces. A água era aquecida pelo grande fogão a lenha, quase sempre aceso, onde as três senhoras discutiam receitas culinárias.
Lembro-me que as paredes não eram claras como se usa hoje, mas eram pintadas com tinta a óleo, em verde, azul ou creme e a iluminação era precária.
Velho casarão! Quantas lembranças!
Os entes queridos se foram e você, perdido em chamas, se foi também, exatamente no dia 21 de abril de 1978. No seu lugar um prédio foi erguido, mas ainda hoje, quando por ali passo, seu vulto se ergue das sombras como se ainda quisesse testemunhar a honra, a dignidade e o amor que por muitos anos abrigou!

Cleide Canton Garcia
Natural de Assis
23/02/2003

O jornal A VOZ DA TERRA, nº 3166, Ano XV, do dia 25 de abril de 1978
publicou a crônica de Jairo Mota, que foi lida na Radio Difusora de Assis, enaltecendo o velho casarão.
Cleide Canton
Enviado por Cleide Canton em 10/08/2005
Código do texto: T41659
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Sobre a autora
Cleide Canton
São Paulo - São Paulo - Brasil
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