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A VALSA DAS ALELUIAS

Parecem mosquitinhos. Mas não são. Não picam. Não zumbem. Mas voam desesperadamente junto à luz nos finais de tarde em dias quentes, e acabam por perderem suas asas com uma rapidez fantástica. Aqui em São Paulo, as pessoas as chamam “aleluias”. Belo e sonoro nome para um inseto tão estranho.

Ontem, um dia após o dia da Pátria, um bando de aleluias resolveu vir valsar em minha sala de aula. E como valsaram. Me deixaram doida. Fechei as janelas desesperadamente, ignorando momentaneamente o calor que fazia, porque não sou exatamente o que se pode chamar uma “amiga dos insetos”, principalmente se forem alados (ou, neste caso, temporariamente alados!).

Descobri, há algum tempo, que o tempo quente traz as aleluias desesperadas e agitadas para nossas casas e locais de trabalho, e elas entram sem piedade, sem pedir licença, sem a menor cerimônia, como se fossem velhas conhecidas. Aleluias gostam de tempo quente. E talvez de lua cheia, porque a lua de ontem, uma bela lua cheia, convidava qualquer pessoa (ou inseto!) a qualquer coisa, com aquela beleza redonda e branca de lua, em noite de setembro, 28 graus. Aleluias e a lua. Cheia. Que bela combinação!

Decidi que ia ficar sentada no escuro, até as aleluias irem embora. Como não gostam de escuro, iriam desistir rapidinho de minha sala de aula. E, além disso, elas só entram durante um curto período que começa aí pelas seis e pouco da tarde, indo embora bem antes das sete da noite.

Luz apagada, comecei a escrever esta crônica, e a lua do meu lado. Às vezes esquecemos que há muito tempo essa era a única luz que iluminava a humanidade à noite. Não escrevi muito, porque, em poucos minutos fui surpreendida pela entrada de outro “bando” de aleluias, igualmente afoitas, falando muito, sorrindo, valsando ao meu redor. Essas, ao contrário das outras, alegram-me, dão-me prazer, iluminam meu dia. São as quatro meninas que preenchem a minha vida e a minha sala de aula de língua inglesa todas as segundas e quartas-feiras à noite, durante uma hora e meia, há seis meses. Minhas alunas chegaram como sempre, trazendo toda aquela juventude transbordante, contando suas alegrias do final de semana, suas dores de amores, suas preocupações, tudo. Estavam agitadas ontem, senti a agitação delas e senti a minha. É a lua, penso, a lua cheia transtorna os ânimos. E o calor também. Transtorna a nós e às aleluias-insetos. E as aleluias-meninas, acaloradas, trazem para mim seus “tudos”. Os misturamos com nossa lição de inglês do dia, e o resultado é perfeito: saímos todas satisfeitas ao final, sentindo que, afinal, não é por acaso que nos encontramos um dia. A noite continuou quente. A lua continuou lá, meio enevoada, já, mas firme, presente. As primeiras aleluias se foram,  deixaram-me em paz. As segundas também, e deixaram-me paz, muita paz, como sempre. Setembro vai seguir seu curso, como todos os meses do ano. É quase primavera. Aleluia!
Clarice Casado
Enviado por Clarice Casado em 12/02/2005
Código do texto: T4199
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Sobre a autora
Clarice Casado
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
16 textos (4906 leituras)
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