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OS SUSPEITOS

Era outono. Apesar disso, o dia estava abafado. Sem vento. Mike Marcus, o agente especial da polícia de Chicago, mais tarde, trataria de descobrir o motivo (ou os motivos) de tão estranha condição climática. Mas, por hora, seus pensamentos analíticos, críticos e psicossomáticos estavam direcionados única, exclusiva e intensamente para a cena a sua frente: uma banheira branca com detalhes abstratos em azul claro preenchida com uma água de cor rósea até a metade (mais tarde, trataria de descobrir também se a banheira estava meio cheia ou meio vazia) e o corpo nu, inerte e sem vida da moradora daquele apartamento, Julie Jamson. Mike Marcus lutava contra um desejo mórbido de beijar o dedão do pé da falecida, tática utilizada para excitar todas as três mulheres com as quais experimentou certa intimidade sexual nos últimos dezenove anos. Conteve-se. Afinal, o banheiro úmido estava repleto de germes e agentes. Não especiais como Mike Marcus, mas agentes. Talvez mais tarde, se fosse convidado para acompanhar a autópsia, beijaria. Beijaria muito. E sim, haveria uma autópsia. Todas as pistas apontavam para um assassinato cruel e meticuloso. A faca afiada jogada ao lado do vaso. A expressão tranqüila da moribunda. Os pulsos cortados. As velas apagadas perto do espelho. Mike Marcus não tinha dúvidas. Assassinato. Portanto, a autópsia era imprescindível.

- E então, Mike? Suspeitas?

Quem perguntava era o chefe de Mike Marcus, Pat Pantoliano. Meio italiano, meio irlandês, meio asiático. Chefe de polícia desde os dezessete anos, já acumulava uma experiência de quase quatorze meses na função. Fugira de casa para estudar artes, mas o destino quis que Pat Pantoliano conhecesse Ted Tranks, ex-detetive particular, seu mentor, em uma aula de pintura contemporânea. Desde então, após ouvir inúmeras histórias de Ted sobre as ruas de Chicago, não teve dúvidas: nascera para combater o crime. Mas, isso era passado e a maneira como Pat Pantoliano se tornou chefe de polícia exigiria muitas explicações. E não temos tempo, espaço, paciência ou imaginação para relatar esse ponto agora. Voltemos ao banheiro.

- Suspeitos Pat... Suspeitos. Um homem cometeu esse crime.

A certeza de Mike Marcus fazia com que os pêlos da nuca de Nora Norman se arrepiassem. Ela, que desde que depositara seu olhar sobre o corpo coberto de roupas de Mike Marcus pela primeira vez, era apaixonada pelo agente especial. Seu amor, não confesso, consumia seus dias, suas noites e seu salário em busca de "brinquedos" que pudessem, de alguma maneira, substituir as carícias que, tinha certeza, nunca receberia de Mike Marcus. Nora Norman, a legista fotógrafa, tirava fotos do cadáver, da banheira, da janela, de Mike Marcus, do vaso sanitário, da faca, do azulejo decorado e de tudo que pudesse ajudar nas investigações. Sempre fora profissional e continuaria assim. Portanto, engoliu, junto com saliva, sua louca vontade de rasgar as roupas e, sob o olhar indiferente de Pat Pantoliano, correr para os braços do seu amado em busca de amor selvagem.

- Como pode ter tanta certeza, Mike?

Quem entrava no banheiro fazendo essa pergunta, cheia de prepotência, arrogância e pêlos no rosto era Sara Sandal, promotora e dona de uma pet shop, ao lado da delegacia. Sara Sandal era famosa por assediar mulheres mais novas. Esse comportamento, no passado, acabara com a amizade que existia entre ela e Nora Norman. Mas essa é uma outra história. Não temos tempo, espaço, paciência ou imaginação para relatar esse ponto agora. Voltemos ao banheiro.

- Ora Sara... É tão óbvio como bolo de cenoura.

Mike Marcus organizava suas idéias, levemente confundidas pelo perfume de lavanda, jasmim, âmbar, canela e salsinha que impregnava aquele ambiente sombrio.

Nora Norman descansara sua máquina na pia e acomodara-se junto a porta de entrada para ouvir melhor e tentar gravar em sua mente as palavras daquele homem másculo, lindo, peludo e que não tomava chá, para mais tarde, na solidão de sua casa, recordar e, quem sabe, gozar. Gozar muito (esse ponto também pode render outra história, mas não temos tempo, espaço, ...). Pat Pantoliano, cortava suas unhas e meditava sobre onde Mike Marcus queria chegar com essa afirmação. "Bolo de cenoura, de milho, de chocolate... Ai que fome!". Sara Sandal olhava com desdém para os apetrechos de maquiagem dispostos sobre o balcão principal enquanto aguardava mais explicações do agente especial e tentava lembrar do momento exato e o motivo pelo qual deixara de gostar daquelas "coisas de menina" e, enfim, descobrira que ser homem era o seu destino.

Mike Marcus respirou fundo e começou sua longa explicação que dava perfeita sustentação à sua conclusão. Mas essa é uma outra história. Não temos tempo, espaço, paciência ou imaginação para relatar esse ponto agora. Voltemos aos nossos afazeres, ou melhor, à cena do crime.
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 16/08/2005
Reeditado em 11/04/2009
Código do texto: T42931

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette