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CARTA AOS FILHOS

Vocês nasceram muito cedo.
Não tivemos tempo para nos preparar para as suas chegadas; ainda estávamos tentando nos entender. E de repente, vimo-nos obrigados a saber por nós e por vocês também.

Nossa criação foi cheia de “nãos” e sem que nos déssemos conta, estávamos repassando esses nãos a vocês, sem antes analisarmos se era lógico e coerente responder daquela forma.

E vocês cresceram repentinamente e então ficamos sem saber quantos nãos deveríamos falar e começamos a dizer: “vocês é quem sabem” Sim! Jogamos as responsabilidades para vocês, mas cada vez que vocês decidiam por si próprios e da forma errada ao nosso ver, usávamos então de nossas autoridades impondo proibições.

Sabemos que assim fica difícil nos compreenderem... sabemos que assim vamos nos afastando mais e mais.

Às vezes pensamos que o único progresso alcançado da nossa geração para a de vocês é que permitimos que nos tratem com menos formalidades, sem a necessidade do uso de senhor ou senhora, mas no restante fica tudo igual, porque damos a vocês o direito de decisão, porém, quando não estamos de acordo, proibimos tal atitude, nos conflitamos com vocês e perdemos a oportunidade de dar a orientação adequada, de expor nossos pontos de vista para que possamos decidir juntos; nós e vocês, a melhor maneira de nos relacionarmos.

Às vezes nem somos tão perdidos entre formas adequadas de criá-los; somos incisivamente proibitivos e fazemos de vocês, seres infelizes, castrados, orbitando em torno de nossas mágoas e frustrações, como que se pensássemos que fosse obrigação de vocês compartilharem de nossas infelicidades, de nossos medos; ou então fazemos de tudo para que vocês realizem todos os sonhos que não conseguimos realizar, sem mesmo perguntarmos se é isso que vocês querem.

Às vezes quando pressentimos que vocês querem nos perguntar algo do qual não sabemos ou não nos sentimos à vontade em falar, nos fechamos e nos distanciamos de vocês; raramente nos propomos a aprender sobre tal assunto junto com vocês porque nos sentimos expostos demais, pois isso nos daria uma condição menos superior do que a imagem que passamos a vocês; mas se fazemos isso é porque na verdade muitas vezes nos sentimos tão pequenos neste mundo, tão inferiorizados pelas nossas próprias condições de não sabermos nem ao menos quem realmente somos, porque estamos aqui e qual é o nosso propósito neste mundo; então somente nos resta sentirmos superiores e absolutos ao menos dentro de nossas próprias casas, tendo vocês como nossos adoradores.

Vivemos hoje numa época em que os jovens são mais livres e aceitamos isso até que com certa naturalidade, aceitamos as meninas adolescentes relacionando-se intimamente com outros meninos adolescentes, mas desde que esta situação ocorra na casa do vizinho, e quando essa realidade começa a adentrar nossas casas, nós ficamos sem saber o que fazer porque achamos que vocês são novas e imaturas demais, mas não temos a coragem de chamá-las para termos uma conversa a respeito, para saber o que vocês pensam, e às vezes não fazemos isso, por medo de perceber que vocês já não são tão imaturas assim e que querem ter o direito de conhecer a si próprias, e que talvez até possam nos apresentar argumentos fortes o bastante, e que nos deixarão sem ter como contestar. E se isso acontecer o que faremos? Optaremos por permitir que vocês busquem sua felicidade e façam suas próprias descobertas ou preferiremos manter a proibição para não sermos criticados pela sociedade; é uma questão difícil de ser resolvida.

Temos enorme medo de que vocês; nossos meninos adolescentes se enveredem pelos caminhos das drogas e conversamos com vocês sobre o assunto, mas quase sempre de forma impositiva ao invés de explicativa. Sabemos que estamos errados agindo assim, mas temos medo de que tendo uma conversa franca e aberta com vocês possamos passar a idéia de que somos liberais neste assunto e que vocês venham a fazer uso das drogas, fazendo-nos sentir derrotados e falhos na maneira de criá-los, e por esses motivos; nossas meninas e nossos meninos adolescentes, freqüentemente exercemos um rígido controle sobre suas vidas, invadindo até as suas privacidades, violando seus segredos de adolescentes, revistando e vasculhando seus pertences, tentando encontrar indícios de algo que temos medo de perguntar diretamente a vocês ou então preferimos fazer vistas grossas como se nada soubéssemos sobre o que se passa com vocês.

Às vezes queremos passar uma imagem de que somos legais e liberais; deixamos vocês envergonhados diante de seus amigos porque ora fazemos papel de bobos da corte com nossos excessos de brincadeiras tolas, ora somos indiscretos contando inúmeras historias de quando vocês eram pequenos, e quando não, tratamos vocês como crianças fazendo vocês se sentirem diminuídos... é que nos sentimos perdidos e até com uma ponta de inveja de ver tanta juventude e espontaneidade juntos e não raramente adquirimos uma postura forçada de adolescentes também e para arrematar essa nossa falta de aptidão, não damos privacidade a vocês e seus amigos.

Enfim... sabemos que poderíamos ter falado sobre outras tantas falhas de relacionamentos que temos com vocês, mas se tomamos esse difícil passo inicial é porque queremos crescer, queremos nos redimir e mostrar que ainda há chance de sermos pais e mães mentalmente mais saudáveis antes que nossas doenças se apoderem de vocês.

Estamos aprendendo que amar é respeitar.
Cida Martini
Enviado por Cida Martini em 16/08/2005
Código do texto: T42970

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Sobre a autora
Cida Martini
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil, 51 anos
19 textos (1433 leituras)
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Cida Martini