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OS CORPOS

"Seria bom, não necessariamente necessário, ler a crônica OS SUSPEITOS antes de prosseguir com a leitura desta que vos apresento, visto que os personagens, que suspeito terem o conceito de sua sanidade sob suspeita, agem, reagem e interagem com seus corpos e mentes nos dois textos. Se o(a) querido(a) leitor(a) preferir dar seguimento a sua leitura sem ler previamente a mencionada crônica, desculpo-me antecipadamente pela falta de coerência e pela exagerada falta de conexão entre os diálogos e tramas aqui expostos. Muito obrigado pela sua gentil atenção." - Nota do autor.


Na delegacia, depois de resolver mais um caso e colocar atrás das grades o famoso traficante de entorpecentes ilegais Dougie Dealer, um Mike Marcus exausto se deixa cair no sofá da sala de seu chefe, Pat Pantoliano. Desde o começo, antes mesmo de saber que Julie Jamson havia morrido, Mike Marcus já sabia do envolvimento de Dealer no assassinato da bela jovem, que fora encontrada morta e completamente sem vida na banheira, meio cheia, do seu apartamento, no centro norte de Chicago.

Eram quase onze horas da manhã e Pat Pantoliano estava, como sempre, absorto em pensamentos. "Farinha de trigo, duas xícaras de leite, fermento, um pitada de sal...". Nada faria aquele homem prestar atenção no que quer que fosse. Nada, a não ser o suspiro profundo e quase feminino de Mike Marcus... Voltando à realidade, como que sendo resgatado por cabos de aço do fundo de um poço, Pantoliano não se conteve e perguntou se havia algum problema.

- Algum problema, Mike?

Por mais que quisesse parecer desinteressado, Pantoliano não conseguia deixar de se preocupar com aquele homem corajoso e que tanto fizera pelo departamento de polícia de Chicago. Nunca esqueceria do dia em que, por um desses mistérios do destino, Mike Marcus havia comprado um bolinho inglês (que Pat tanto aprecia) e o havia deixado na mesa de seu chefe. Mais tarde, apesar de todas as tentativas de Mike deixar claro que havia esquecido o bolinho na mesa de Pat porque estava com pressa e com outras coisas na cabeça e não porque admirava o trabalho de seu chefe no comando do departamento, Pantoliano concluiu que aquele agente especial era realmente o que todos diziam dele: que ele era realmente especial. E entre as coisas que vagavam insistentemente na cabeça de Mike Marcus estavam as dúvidas sobre que argumentos teria que usar para convencer o legista Mort Meant de que a sua presença durante a autópsia de Julie Jamson era extremamente importante.

- Não Pat, nada que você possa ajudar.

A voz de Mike era tão grave quanto a voz dos jazzistas de New Orleans. Mike Marcus estava deprimido, não havia dúvidas e, enquanto Pantoliano tentava decifrar o mistério por trás daqueles olhos semicerrados e distantes, Nora Norman entrou na sala, angustiada e cheia de angústia, seguida de perto por Sean Simmon, segurança do prédio. Sua voz, quando falou - mesmo porque antes de falar, não teríamos como dizer o que vem em seguida - refletia uma angústia incontestável.

- Pat, o corpo de Julie Jamson desapareceu! Simplesmente sumiu!

Nesse momento, Mike Marcus sentiu uma faísca fisgando as partes baixas das suas costas e que o incomodava cada vez que alguém entrava em alguma sala qualquer com algum drama, enigma ou mistério qualquer a ser resolvido.

- Como assim, desapareceu? Desapareceu de onde? Onde estava o corpo de Julie Jamson?

A voz de Pat Pantoliano era de sincero espanto. E seus pensamentos entraram em um turbilhão incontrolável. "Seria possível o necrotério desta cidade não oferecer segurança para os seus hóspedes? Seria possível roubar um cadáver à luz do dia? Seria possível usar fermento light em um bolo de baunilha? Seria hoje, quarta-feira?". Antes que alguém pudesse responder as perguntas do chefe de polícia, Mike Marcus, que saltara do sofá num sobressalto que sobressaltou de sobremaneira a pobre e assustada Nora Norman, pôs-se a correr pelo corredor. Sean Simmon tentou acompanhar o agente especial, mas devido à sua idade avançada e à falta de uma dieta mais homogênea, não conseguiu acompanhá-lo para além da porta da sala de Pat Pantoliano, tendo que voltar e recuperar o ar deitando-se de lado no sofá.

Como se a situação não estivesse caótica o suficiente, Sara Sandal, a promotora mais masculina de Chicago, passou em direção à sua própria sala, prostrada e parecendo carregar em seus ombros todo o peso do planeta. Seu rosto, desfigurado e peludo, deixava claro que havia passado a noite em claro.

- Sara! O corpo de Julie Jamson desapareceu!

Nora continuava transtornada e esqueceu que não dirigia a palavra à Sara Sandal já fazia mais de seis meses devido ao incidente causador daquele silêncio todo: o assédio de Sara. A promotora, mal erguendo os olhos, respondeu, variando em cada palavra, o tom de voz:

- Julie Jamson... Eu sei tudo sobre aquela garota. O corpo dela não sumiu. O corpo dela está na minha casa. Eu mesmo o levei. Experimentei algo indescritível ontem à noite... Foi algo que não tenho tempo, ânimo, paciência ou vontade de relatar agora. E Mike deveria ter apanhado o corpo daquela garota hoje cedo, pela manhã, antes que Mort colocasse suas mãos e ferramentas de legista sobre ele, acabando com toda a sua beleza. Aquele patife... Onde ele está? Alguém o viu? Onde está Mike Marcus?

Tudo estava claro agora. O rosto preocupado de Mike Marcus refletia sua preocupação por estar muito atrasado para uma tarefa a que tinha se comprometido. Mike Marcus nunca deixava de fazer o que havia prometido. Mas, e a sua saída repentina e apressada da sala de Pantoliano? Nora Norman não conseguia livrar-se das duas perguntas que ficavam martelando na sua cabeça. Talvez as perguntas mais importantes que já pousaram em seu cérebro... Estaria Mike Marcus a caminho da casa de Sara Sandal para reparar sua falta de atenção e colocar o corpo da bela e jovem Julie Jamson em seu devido lugar, ou seja, na mesa fria e metálica que Mort Meant utilizava em suas autópsias? Ou o bolo de amora que Pat Pantoliano havia feito especialmente para o agente especial, em retribuição ao bolinho inglês, havia causado um efeito não esperado e Mike Marcus estaria agora a caminho do banheiro mais próximo numa velocidade e ansiedade difíceis de calcular?

Assim como as respostas ao mistério sobre o que pode motivar uma mente a criar uma história insólita como esta, as perguntas de Nora Norman também ficarão no ar...
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 16/08/2005
Reeditado em 11/04/2009
Código do texto: T42983

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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