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QUEM DISSE QUE NÃO DÓI?

Nesse Dia dos Pais lembrei de uma história.

Sempre gostei muito de ler e isso certamente foi influência do meu pai. Cresci cercada por sua coleção de livros maravilhosos e o resultado hoje é este: uma estudante de Letras e provável escritora.

Quando eu era pequena lia de tudo, mas era viciada, é claro, em gibis. Meus preferidos eram os da Turma da Mônica. Meu pai toda semana comprava algumas revistinhas, que eu devorava com prazer. Gostava especialmente da Magali, talvez por eu sempre ter sido, como ela, a magrela da turma.

Acontece que os anos foram passando para mim, enquanto que pra Mônica e seus amiguinhos nada acontecia. Eles continuavam os mesmos: crianças vivendo suas aventuras infantis. Eu, ao contrário, já não era a mesma.

Comuniquei ao meu pai que a partir daquele momento ele não precisava mais comprar os gibis. Eu queria algo assim... Mais adulto. Ele, então, prontamente surgiu com uma Capricho nas mãos, que na época se intitulava "a revista da gatinha".

Vibrei, é claro. Eu tinha em mãos um novo universo. Uma revista que surpreendentemente falava comigo. Sabia o que eu gostava de vestir, de assistir, de comer, de fazer. Sabia até que eu já gostava de meninos. Era "muito massa", como eu certamente devo ter exclamado naquele dia.

Então, eu e meu pai estabelecemos uma nova rotina. Todos os meses ele chegava em casa com a Capricho nova nas mãos. Eu me sentia muito bem, é claro, pois aquilo sim era leitura de gente grande.

Até que um dia... Ele não trouxe a revista. E nem no outro. No outro. E no outro. Um mês inteiro e nada. Talvez ele tivesse esquecido. Mas, sendo meu pai quem é, me parecia algo improvável.

Decidida a desvendar o mistério, fui até uma banca. É claro que o problema deveria ser da editora, pois meu pai não faria aquilo comigo.

Ledo engano. Quando vislumbrei a revista exposta na banca entendi tudo. Na capa, Luana Piovani, ainda uma menininha (como eu), segurava uma camisinha. Abaixo dela, o início da campanha que a Capricho faz até hoje: camisinha tem que usar. Pobre papai.

Lembro que fiquei chocada por ele não ter comprado a revista. Incomodei, reclamei, briguei. Lembro que não entendia qual era o problema da Luana Piovani segurando a camisinha. Demorei pra perceber que não era a Luana: era eu.

E passei a me sentir mais segura por descobrir que crescer não era difícil apenas para mim.


Mulher de Sardas
Enviado por Mulher de Sardas em 18/08/2005
Código do texto: T43412
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Sobre a autora
Mulher de Sardas
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
50 textos (9999 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 22:47)
Mulher de Sardas