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ABENÇOADA IGNORÂNCIA

Edgar, meu alter-ego, um cara de absoluta confiança, em uma de suas inúmeras aventuras pelo reino do desconhecido, pelo mundo sem poluição do inconsciente (meu e coletivo) e pelo ambiente pouco estável da imaginação, conheceu Zeus. Isso mesmo, Zeus. O deus dos deuses. Proprietário do Olimpo, chefe da rapaziada, comandante da tropa, dono da bola.

Edgar, que diferente de mim, não tem muitas papas na língua e nem muita vergonha na cara, aproveitou a oportunidade e foi logo disparando:

- Fala bacana! Tu que és Zeus, então? Tu que és o rei da cocada, o manda-chuva, deus do mar e das águas...
- Não mortal, esse é Netuno.
- Ok, ok. Mas, cá entre nós, tu tens participação naquele aguaceiro todo, não tens?
- O que tu pretendes entrando aqui no meu reino e enchendo meus sentidos de dúvidas, inquietações e coceira?
- Nada demais, meu amigo Zeus... Nada demais. Apenas passeando. Recolhendo informações para um amigo meu (eu). Sei que és ocupado, deves ter muito o que fazer, então tentarei não encher muito a tua majestosa paciência.

Zeus tinha uma expressão no rosto que misturava ansiedade, curiosidade, fome e vontade de torcer alguns pescoços. Edgar, com seu ar de tranqüilidade e com aquela certeza que só tem quem não sente dor, caminhava calmamente de um lado para o outro na frente daquele ser majestoso, de medidas avantajadas e cabelos amarelos.

- Bela casa tens aqui... É própria?
- Mortal, o que te incomoda tanto? Fala logo para que eu possa tocar a minha vida que, tu sabes, é eterna e para que eu possa retornar à minha rotina.
- Zeus, meu velho, já que és eterno, qual é a pressa? Relaxa e verás que tudo se resolve.
- Tu falas como se tudo fossem flores...

Zeus, acomodado em seu trono roxo com detalhes em azul claro (cafona, como descreveria Edgar quando relatou sua aventura), começou a se remexer como se mil pulgas estivessem mordendo seu magnânimo traseiro. Na sua busca constante, porém sem estresse, pelo conhecimento, Edgar apenas circulava pelo salão, até que, de supetão, como que querendo pegar seu interlocutor de surpresa, bradou com um ar sério:

- Zeus, o negócio é o seguinte: por que ignoramos algumas coisas que parecem ser tão importantes? Por que não temos o poder de saber o que realmente se passa na cabeça de outros mortais? Por que...?

Zeus interrompeu Edgar e, deixando claro sua pressa, desandou a falar com um tom imponente:

- Ingênuo mortal. Tantas perguntas e tantas dúvidas! Ignoras que "ignorar" é certamente uma dádiva concedida aos da tua raça. Ignorar o que aconteceu em vidas passadas é uma benção. Saber, seria tirar do ser humano toda a espontaneidade e beleza do processo de evolução. Ignorar os ingredientes da feijoada do restaurante da tia Lúcia é uma benção. Saber, seria ter que procurar ajuda médica ou se preocupar em providenciar um jazigo, enquanto é tempo. Ignorar que foi traído pela pessoa amada é uma benção. Saber, é uma merda... Sim, mortal, também usamos linguajar chulo por aqui. Ignorar o que se passa na cabeça de outros mortais é uma benção. Saber, seria doloroso demais ou sem graça nenhuma, portanto, inútil.
- Mas e...
- Então, pobre mortal, aquieta a tua mente e te convence de que ignorar, muitas vezes, é um bálsamo para tuas dores... E agora, me deixa em paz!

Edgar, contrariado, fez questão de deixar claro sua frustração. Tinha mais algumas perguntas mas, como Zeus não deixava dúvidas de que o encontro havia acabado e lhe apontava o caminho da saída, resolveu ir embora. Teria tempo... Em outra oportunidade. Mas, não podia deixar de se sentir abandonado. Abandonado pelo deus dos deuses...

Pelo menos foi assim que Edgar me disse que se sentiu.
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 23/08/2005
Reeditado em 23/08/2005
Código do texto: T44523

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette