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Dona Herda

Dona Herda nunca mais foi a mesma depois que saiu de Maratá. Ela sabia que manter um Caixa 2 na bodega que tinha naquele bairro da periferia da grande cidade, um dia, ia dar confusão. Mesmo assim ela insistiu em continuar tirando dinheiro daí para financiar a campanha do Lucrécio, líder dos flanelinhas, para vereador. No partido, o PQP do B, ninguém se importava com isso – nem com nada que não fosse chegar ao poder -e até sugeriam a Dona Herda para que ela sensibiliza-se seus colegas bodegueiros a colaborar e aumentar a arrecadação do Saco Azul, que é como chamam o Caixa 2 lá em Portugal. Foi o que ela fez. E tanto fez pelo bem e pela glória do PQP do B que a cúpula partidária sempre passava, no fim da tarde, na bodega dela para tomar umas cachaças. Em retribuição ao seu empenho, a militância também passou a freqüentar a bodega. Era tanta gente que ela foi obrigada a ampliar as instalações ali mesmo, porém. Dois anos depois Dona Herda tinha diversas bodegas espalhadas pela cidade. Seu sucesso era enorme. Seu faturamento foi multiplicado por mil. E o Caixa 2, que ela chamava de FPdeCD - Fundo Partidário de Colaboração Desinteressada -, já financiava campanhas por todo o país.
Um dia, já era noite, nos bastidores da Tv Global, onde acontecia o debate final entre os candidatos a Presidente da República da Grande Nação Pindoba, Dona Herda conheceu um doleiro. Era um dos assessores de um dos candidatos. Sim, mas tudo bem. Apaixonada ficou; estupidez à primeira vista. Depois da posse do novo Presidente, um carismático masturbador, casaram-se e foram passar a Lua de Mel nas ilhas Seycheles, onde, por sinal, o doleiro-assessor, agora no topo do poder da República, era muito conhecido. Duas semanas depois, Dona Herda, feliz com o que viu e com o que sentiu, voltou à Grande Nação Pindoba, mas, sem o doleiro que ficou por lá acertando alguns negócios... por assim dizer. Ao desembarcar no aeroporto Federal foi presa pela polícia. Por bom comportamento, Dona Herda foi posta em liberdade condicional depois de passar quatro anos na prisão. O doleiro desapareceu. Dona Herda retomou seus negócios; suas bodegas, melhor dizendo, e agora já se prepara para dar outro golpe. Desta vez, bem grande.
O Presidente, um carismático masturbador, foi reeleito. Mas que fique claro: nada contra a reeleição e a masturbação. Essa, desde que seja feita em si mesma e para seus próprios desígnios. Quanto à reeleição, porém, que seja apenas a do síndico do meu prédio, que é ótimo.
Dona Herda não sabe e sempre diz que tem raiva de quem sabe, que outros bodegueiros tomaram seu lugar. Ela, porém acredita que seu espaço está garantido e que ainda merece a confiança e, principalmente, a consideração de todos os que ela ajudou com os repasses dos recursos que conseguia levantar para os financiamentos. Financiamentos das propinas fartamente distribuídas para uns poucos se comparados aos muitos que, bem acomodados em seus ninhos, estão sempre com seus biquinhos empinadinhos e abertos. Dona Herda acredita na reciprocidade desinteressada; é o que ela diz. Mas, na prática, é franciscanamente fã ardorosa do é dando que se recebe. Pobre Dona Herda. Sem espaço e sem contatos; sem bases de apoio, está fora da reeleição do Presidente, um carismático masturbador, pelos próximos 4 anos. Dona Herda não está só. Outros também estão fora para dar lugar atrás da bananeira. Essa é a cruel dinâmica da sucessão, da troca democrática de poder, onde quem é substituído desmancha o que foi feito pelo antecessor – mesmo o que tenha sido bem feito, que seja relevante. No caso da reeleição é pior, pois nada é mudado, alterado, melhorado. A reeleição é a reafirmação de tudo o que não foi feito. Troca-se apenas algumas pessoas dos seus cargos; e para acomodar a todos, pois a corte aumenta, criam-se novos cargos; novas repartições, institutos, agencias, ministérios e assessorias. Muitas assessórias. Algumas delas para darem lugar a outras idênticas e desnecessárias.
È a dinâmica viciada da pratica torta da democracia representativa, onde o povo, a sociedade, é tornado massa. E como tal sem identidade, sem forma, sem cor, sem ânimo. Manipulado, vota na estética da política - na apoteose, nos confetes, nas lantejoulas e nos balangandãs. Manipulado, não vota no conteúdo.
Dona Herda está fora; porém voltará. Talvez com mais força e mais poder. Quem sabe pela delação premiada ou como prêmio pela traição, pelo roubo, pelo achaque; pela negação da verdade, pela reafirmação da mentira pregada na cara. Com o sorriso irônico, o olhar debochado, o silêncio corrosivo.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 23/08/2005
Código do texto: T44578
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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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