CONTANDO ATÉ DEZ

Ontém, minha filha de dezessete anos de idade, teve um dia de cão. Logo pela manhã, brigou com o namorado pelo telefone. Eu a levei para o trabalho em seguida e, embora tenhamos ido de carro, ela se molhou com a chuva fina que caía, do estacionamento até o portão do parque em que ela é recepcionista. Especialmente ontém, ela encontrou muitos clientes chatos e exigentes, com os quais ela teve de lidar escondendo o mau humor e disfarçando os pés ainda molhados de chuva. Por volta das duas horas da tarde, ela pediu uma pizza pelo telefone, que seria seu almoço, porém quando eu a peguei no trabalho mais tarde, por volta das quatro e meia, a pizza ainda não havia chegado. Ela me disse, então, no carro, quando voltávamos para casa:

- Que dia horrível que eu tive, tudo deu errado e, além de tudo, estou faminta! Tudo o que quero é chegar em casa e tomar uma boa xícara de café...

Em casa, foi exatamente o que ela fez. Pôs café em uma xícara, adicionou açúcar e leite e, no momento em que ela se encaminhava para o microondas, por descuido, bateu o braço em alguma saliência e derramou todo o café no chão.

Naquele exato momento, eu fechei meus olhos! Aquilo já foi demais e fiquei só esperando o grito de raiva, ou alguma maldição qualquer que ela soltaria em seguida, mas, ao contrário e para minha surpresa, ela nada falou. Apenas respirou fundo, como se contasse até dez mentalmente, encaminhou-se até a pia, apanhou uma esponja com sabão, limpou a sujeira e, com toda a calma do mundo, preparou outra xícara de café.

Aquilo me fez pensar... Será que não deveríamos lidar com os obstáculos, dificuldades e infortúnios da vida com a mesma atitude? Não seria esse momento de reflexão interior, esse momento em que contamos até dez, um tanto para recuperar a sanidade, esse momento em que paramos e nos damos um tempo para pensar na nossa reação ao que está diante de nós, cujo tempo pode bem ser um segundo ou um dia, ou quantos dias fôr necessário, exatamente o que nos transporta para uma fase melhor? Não estaria a solução de todos os nossos problemas escondida exatamente na nossa atitude diante deles? Não estaria a nossa felicidade embutida em nossa escolha em não extravasarmos a raiva com agressividade ou com ofensas? Não seria essa aceitação resignada daquilo que não podemos mudar o que nos faz mais sábios e lúcidos diante do inevitável? Não seria esse momento precioso em que paramos para ponderar justamente o que nos impediria de cometer erros na vida?

Minha filha aproveitou o delicioso café e teve uma tarde muito mais tranquila. À noite, ela fez as pazes com o namorado.