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Ela é só mais uma!

Tem dois filhos em idade escolar, mora de aluguel, ajuda no sustento dos pais, que vivem na periferia. Tem um carro popular, usado, mas lhe serve. Fez apenas um ano de faculdade e com muito custo... Mas teve de parar. Tem um namorado legal, mas que nada sabe de sua vida.

Sua família dá graças, por ela ter um trabalho tão bom, que lhe permite passar o dia com as crianças, que dá prêmios em dinheiro, e presentes às vezes! E o melhor, tira dias de folga quando quer!
Trabalhar à noite pode ser ruim às vezes, mas todos concordam que sem o que ela ganha, a vida seria muito mais difícil.

Lá pelas 18:00, enquanto trabalhadores estão chegando em suas casas, ela está saindo para seu trabalho. Se despede das crianças sempre com um "Deus te abençoe". Não fica mais triste como antes. Prefere pensar que tudo bem, a vida é assim mesmo.

Chega cedo ao "ponto". Suas companheiras de trabalho dizem que o movimento está um pouco melhor, devido ao calor...
Sorrindo diz que não pretende trabalhar até tarde, pois precisa ir cedo à uma entrevista de emprego no dia seguinte.
Às colegas desejam boa sorte. Mas todas elas sabem, que uma vez nesta vida, dificilmente há de se sair...

Pelo carro, ela calcula quanto pode cobrar, negocia daqui, dali e vende seu corpo por mais uma hora, ou duas.
Mais tarde, de volta ao ponto, faz um balanço geral de quanto ainda precisa para esta noite. Pois calculando assim, consegue saber de quando vai precisar pra passar o mês, pagar as contas...

Transeuntes lhes dirigem xingamentos, os piores possíveis. Entender esta vida? Achar que é a tal "vida fácil"?
Difícil, é o que é.

Depois de 5 ou 6 "clientes", sai ao amanhecer do dia, troca-se no banheiro da padaria, onde uma amiga sua trabalha... e o faz todos os dias, para não chegar "naqueles" trajes em casa... Aproveita e compra pão e leite fresco para as crianças.
Ao pagar, vê a nota de R$100,00, o primeiro pagamento da noite passada.

Quantas pessoas há tempos não vêem uma nota dessas?

Paga e sai apressada, ainda consegue tomar café e levar as crianças na escola...

De volta em casa, vai à salão de cabeleireiros, compra lingerie nova... Vai à tal entrevista - qualquer coisa ligamos pra você - Dorme um pouco e liga para o namorado. Transam mais por obrigação que por prazer.

Depois que ele se vai, ela chora. A vida poderia ter sido melhor, se...

Se? Se o que? Ela é só mais uma!

A natureza lhe deu alguma beleza, o suficiente pra vender o corpo. Alguma inteligência, o suficiente pra negociar com o freguês, e se cuidar pra não ficar doente.
E nenhuma esperança, pois a facilidade faz a necessidade e ela trava uma luta diária com o tempo, para tentar ganhar o quanto pode, enquanto a vida não lhe rouba a beleza e a juventude.

E ao final, certa de que fez o melhor, ela será mais uma na multidão de tantas outras que se foram, vítimas do moralismo desmedido, mas criou seus filhos com o suor do seu trabalho.
Flávia Jobstraibizer
Enviado por Flávia Jobstraibizer em 26/08/2005
Código do texto: T45331
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Sobre a autora
Flávia Jobstraibizer
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Flávia Jobstraibizer