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Castigo, ou palmadas?(A Saga...38)

Minha saudosa mãe teve dez filhos, todos em casa, com parteira. Nunca entrou em hospital pra parir. Era tudo com Comadre Santinha.
     Quando aquela figura gorda e suarenta, chegava com sua malinha preta e de uniforme de emfermeira formada, a gente percebia que ia chegar mais um.
     Sete homens e tres mulheres.Era uma escadinha, todo ano nascia um.
     Minhas irmãs, até que não, mas nós os meninos davamos a maior mão de obra.
     
     Era briga, discussão e algazarra o tempo todo que deixava qualquer um de cabeça tonta.
     Um queria jogar pelada, o outro, soltar pipa, outros dois brincar na rua; e começava o desentedimento.
      Só não tinha bagunça,em tres situações: Quando a 'assistencia"(como era chamada a ambubulancia) entrava apitando no bairro e a gente corria de medo daquele carro branco, pra se enfiar debaixo das camas, pois sabia que ela vinha buscar alguem e boa coisa não era.
     Ou quando "dona Celina papuda"(Que ostentava um papão e dez papinhos em volta)vinha pedir esmola e brincava que ia levar um de nós com ela.
     Ou ainda quando nossa mãe pra nos intimidar e contendo o riso dizia:-" Olha só: um de voces não é meu filho de verdade.    Deixaram numa cestinha aí na porta e eu criei junto com os outros! Aí ficavam os sete filhotes, inconsoláveis inquirindo a màe com cara de choro: O Mãe, sou eu, mãe?
 Não sou eu não, né?  Por favor mãe, quem é?
     Aí era a vez de minhas irmãs e minha mãe darem risadas de nós.De vez em quando ela punha de castigo ou dava umas chineladas no trazeiro, ou dúzias de "bolo"(chineladas na mão, que a  gente contava, em ordem decrescente enquanto segurava o choro.
     A gente preferia levar uma surra, a ficar de castigo.
O efeito das chineladas passava logo, mesmo porque não eram dadas com muita convicção, ao passo que o castigo no quarto nos tirava de tudo que a gente mais gostava que era brincar em bando, jogar pelada, brincar de pique, esconde-esconde, etc.
     Hoje eu compreendo que o grande medo era de ser separado dos outros por um dia sequer, pois apezar da brigalhada, a gente se gostava muito e é assim até hoje.
     Certa vez ddurante uma pelada no terreno da esquina, Betinho, o mais velho, bateu no Silvinho o mais novo na época.Dona Flávia, que passava roupa no quarto ao lado viu tudo pela janela. Chamou o Betinho pra casa. Ele deixou contrariado a pelada e obediente foi pra casa, torcendo pra levar umas chineladas ao invéz de pegar um castigo no quarto.Quando minha mãe segurou seu braço dirigindo-se pro quarto, tocaram a campainha da porta.Era uma comadre que não a visitava, fazia um tempão. ela soltou o Betinho no quarto, prometendo: Me espera, que daquí a pouco acerto com voce!
     
       A conversa corria animada, a pelada pegava fogo lá fora e o Betinho naquela solidão de náufrago lá no quarto.De repente, um grito de "Goooooollllll", lá fora.
Betinho abre a porta num rompante e "sem querer interromper, mas já interrompendo",doido pra se livrar do castigo, intimou minha mãe: -"O mãe,como é que é? a senhora vai me bater, ou não vai?" Claro que terminou em risadas e afagos na cabeça.
Aecio Flávio
Enviado por Aecio Flávio em 01/09/2005
Reeditado em 22/10/2007
Código do texto: T46811
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Sobre o autor
Aecio Flávio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 75 anos
139 textos (20915 leituras)
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Aecio Flávio