Ao Correr da Pena

Como é difícil andar de ônibus, nas horas de pico, nesta cidade. Vocês, leitores, que durante a semana já cumprem rigorosamente esse martírio, fiquem à vontade para não embarcar nessa crônica ambulante. Caso contrário, audazes e teimosos, sejam bem-vindos e se abanquem, se conseguirem assentos vagos, é claro...

Hoje eu precisei tomar uma condução da linha Antônio Bezerra – Messejana que, para variar, estava com os passageiros a sair pelas janelas. Era um empurra-empurra danado, além do calor, da criancinha passando mal no colo magro da mãe, do sofrimento dos velhinhos para entrar pela frente e da sucessão de sacolejados, que há quem jure, por tudo no mundo: esse “troço” vai virar...

Não vão acreditar, pois, até eu que não sou de me impressionar com essas coisas, estranhei: em meio a toda aquela confusão, reconheci, logo ali, em pé, de mochila nas costas por sobre a casaca, o José de Alencar. Com o colarinho branco empapado pelo suor que escorria em bicas, equilibrava-se, segurando no apoio de um banco, enquanto que, com outra mão, empunhava um livro do Hoffman. Que louco poderia imaginar encontrá-lo naquele ônibus e, justamente, na véspera de seu aniversário? Ao me reconhecer, comedido, cumprimentou:

— Salve, salve, prezado folhetinista!

— Folhetinista, eu? — respondi, ainda surpreso.

Mencionou-me, então, que vinha de sua casa, o Sítio do Alagadiço Novo em Mecejana, pois não tinha pisado lá ainda desde a sua última reforma. Vaidoso, encantou-se, e disse que havia passado uma tarde muito agradável, flanando pelo terreno, em companhia da professora Ângela Gutierrez a desfiar da memória as recordações da cazuza infância.

Dirigia-se agora ao centro da cidade. Não escondia, porém, a sua tristeza com o estado em que este se encontrava:

— Como o povo cearense pode permitir tamanho descaso e desperdício? Diga-me, Raymundo, como se pode falar em qualificar e aformosear o centro histórico da cidade se o poder público é o primeiro a abandoná-lo? Veja bem: a sede do Governo do Estado, para começar, deixou o Palácio da Luz; depois, o Governo Municipal abandonou o Paço para nunca mais; os vereadores também debandaram para bem distante e, não bastasse isso, o Judiciário conseguiu fazer por desaparecer o prédio INTEIRO do Fórum Clóvis Beviláqua... Apesar de que, — ironizou — neste caso, até me causa admiração o fórum ter resistido durante tanto tempo, estando à vizinhança do velho Imperador. Ora, se tendo a antiga Sé às suas barbas ele não evitou que a demolissem! Realmente, o homem é um pé-frio... Que pena, que pena! Bem, mas vale tarde do que nunca. Esperemos o dia em que poderemos lançar os olhos em nossa cidade e contemplar a paz e a prosperidade...

Nesse momento, a conversa foi interrompida quando Alencar viu, com assombro, emergir, em meio às águas da lagoa de Messejana, a verde estátua de Iracema. Sacudiu a cabeça, censuroso, ao observar-lhe as feições:

— Com santo respeito, mas não tem parecença alguma com a minha Iracema! Assemelha-se mais às obras do senhor Magalhães*!

De repente, tirou os óculos em aros dourados e os substituiu por um grosseiro par de armações tartaruga, sacado de um estojo de marroquim roxo, fitando-me:

— Esta é a minha luneta mágica. Com ela, misteriosamente, posso ler em sua boca os seus mais sinceros e secretos pensamentos... — riu — Ah, então é assim? Que coisa! — trocou os óculos novamente, mudando de assunto e discorrendo sobre a crônica:

— É uma felicidade que não me tenha dado ainda ao trabalho de saber quem foi o inventor deste monstro de Horácio chamado crônica, senão aproveitaria algum momento em que estivesse de candeias às avessas e lhe escreveria uma biografia que havia de fazer esse sujeito, inventor de tão desastrada idéia, ter um inferno no purgatório onde ele, necessariamente, deve estar, concorda? Afinal, como se pode hoje brincar sobre um assunto, escrever uma página em estilo mimoso, falar de flores e música, se o eco da cidade nos responde de longe: pão, epidemia, socorros públicos e enfermarias?

O ônibus solavancou, quase que arrancando o Alencar junto, o que o fez protestar em alta voz:

— Mais devagar, boleeiro, que aqui vai gente! Para que tanta pressa, rapaz?

Após o protesto, e as vaias dos passageiros da “geral”, parou para pigarrear e engolir a incômoda tosse tratada há algum tempo com homeopatia, enquanto conferia ligeiras palmadas em algumas mãos que desciam “descuidadas” nos bolsos de sua casaca risca de giz.

— Ora, e mais essa... — voltou-se a mim, desolado, e continuou:

— Invejo você, Raymundo. Eu, por diversos motivos, alguns fatais, tive de deixar a minha boa pena de folhetinista, minha amiga de tantos dias e confidente de minhas mágoas. Tenho saudades daqueles tempos em que ela brincava comigo, sorrindo, coqueteando, desfolhando as flores da imaginação, e levando-me pelos espaços infindos da fantasia. Os outros a esquecerão, mas eu me lembrarei dela sempre e basta isso para consolá-la!

Nisso, uma adolescente, morena cor de jambo, cabelos à rabo de cavalo negrejante, lábios grossos feitos para sorrir e olhos amendoados de graça radiante, pediu-lhe passagem. Vestia uma farda da escola pública meio surrada e suja, e trazia, bem junto ao peito, um conjunto de cadernos e estojo cor-de-rosa da Hello Kitty. Olhou para o escritor e pôs-se a disfarçar um sorriso perolado, coberto a mão de pequenos dedos com unhas devoradas, deixando escapar uma gargalhada gostosa, logo compartilhada por uma coleguinha, também risonha, a mascar chicletes. Alencar brilhou os olhos, a cumprimentou com duas cortesias do estilo, revelou um sorriso simpático em meio à barba estrelada de suor, temperou a garganta e, com os olhos por cima dos óculos, dirigiu-lhe a palavra:

— Qual a sua graça, mocinha, posso saber?

— Iracema, seo Zé... Iracema da Silva!

Volta-se para mim:

— E então, meu caro, você já percebeu como e por que sou cronista?

José de Alencar nasceu em Messejana (CE) em 1º de maio de 1829 e faleceu no Rio de Janeiro em 1877. A partir dos 25 anos, começou a publicar os folhetins (crônicas) intitulados Ao Correr da Pena, nas páginas do Correio Mercantil. Após a sua saída do Correio, trabalhou, a partir de 1855, no Diário do Rio de Janeiro, jornal onde protagonizou a célebre polêmica com o poeta Gonçalves de Magalhães (*). Escreveu Como e Porque Sou Romancista (autobiográfico) publicado postumamente em 1893. No texto, alguns dos trechos da fala de Alencar foram extraídos das crônicas de Ao Correr da Pena.

Raymundo Netto é escritor, autor do romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, membro do Conselho Editorial de CAOS Portátil – um almanaque de contos. Contato: raimundo.netto@globo.com

Fortaleza, Ceará, 30 de abril de 2007 (Crônica publicada no Caderno Vida & Arte do Jornal O POVO)

Raymundo Netto
Enviado por Raymundo Netto em 03/05/2007
Código do texto: T473125