A ROCHA

Caminhavam quase correndo naquela senda estreita, ao alvorecer. Nenhuma construção nos arredores. Eram irmãos, uma menina de onze anos, com os cabelos revoltos ao vento, e um garoto de oito anos, com um boné de aba para trás. Estavam de mãos dadas. Alegres, saltitavam e cantavam, pois iriam ao encontro de seus pais.

Entretanto, logo após uma pequena curva, se depararam com uma imensa pedra bloqueando o caminho, que fechava-lhes completamente a passagem, pois a estrada, naquele ponto, era ladeada por barrancos rochosos, de média altura, mas que para eles pareciam gigantescos.

A dúvida se instalou. O que fazer? Qual a solução? Eles não conseguiam ver um modo de superar aquilo. Quase choraram diante da terrível perspectiva de retornar o caminho.

Porém lembraram das lições de coragem muitas vezes repetidas e exemplificadas pelos pais, que se tornaram indeléveis em seus corações: "Sejam determinados. Sigam em frente. Não desistam facilmente. Focalizem as possibilidades. Usem suas capacidades e criatividades para vencerem os obstáculos. Confiamos e acreditamos em vocês."

Então, enumeraram as mais fantásticas formas de ultrapassar aquela pedra. Contorná-la? Como, se os barrancos eram muito lisos e estavam cobertos de limo? Perfurá-la? Como, se em suas mochilas o único objeto cortante era o minúsculo canivete do menino? Escavá-la por debaixo, no solo úmido, criando um túnel? Como, se não havia pá, mas tão somente uma pequena colher na sacola da menina?

Quando parecia que nada mais de produtivo havia a fazer, as crianças viram uns arbustos à beira do caminho, com galhos fortes e de bom diâmetro. Entreolharam-se. Nem precisaram falar, pois tiveram a mesma idéia. Ambos os foram recolhendo e desfolhando.

A menina retirou da mochila um grande pedaço de tecido de seda, que seria presente para sua mãe, e o rasgou pela metade. O menino cruzou os galhos recolhidos e os uniu, rodeando-os e atando-os com talos da folhagem, formando uma grande e forte, mas bem leve, estrutura de madeira. Por cima dela passaram a seda, amarrando-as nas quatro pontas.

Construíram assim uma espécie de pipa, quase uma asa delta, rústica mas eficiente. Havia um rolo de fina corda de náilon, que seria presente para o seu pai. Utilizaram-na para amarrar a pipa.

Combinaram que o menino, por ser menor e de pouco peso, se prenderia à estrutura, retrocederiam para bem longe e a menina correria o máximo que pudesse, segurando a corda, a fim de levantar a pipa, controlando-a de modo a ultrapassar a rocha. Quando o menino pousasse do outro lado, ele a puxaria pela corda, para que ela pudesse escalar a pedra.

Era um projeto de muito risco. Arriscadíssimo, aliás. Mas com o entusiasmo temerário, próprio de suas idades, eles resolveram prosseguir, certos de que conseguiriam a vitória.

Como a ventania estava boa, e ambos eram saudáveis e fortes, por mais absurdo que pareça, eles conseguiram realizar seu intento, sem graves problemas, além de arranhões e pernas e braços ralados.

Quando se reuniram com seus pais e amigos, contaram a incrível aventura, mas poucos acreditaram. Foram ver de perto a tal pedra, constatando boquiabertos a veracidade dos fatos ao depararem com a pipa estraçalhada junto ao chão.

Perguntaram-lhes o porquê de não terem retornado à vila, o que teria sido bem mais fácil.

Responderam que teriam de esperar muitos dias até que se arranjasse uma escavadeira para retirar a rocha. Que a saudade dos pais era infinita, tanto que já estavam quase a explodir. Que não regrediriam, para depois ficarem se lamentando pela falta de iniciativa. Que não queriam se arrepender por terem desistido sem sequer tentar uma solução. E que queriam mostrar aos pais o quanto as suas lições de coragem lhes valeram e foram úteis na hora de lutar verdadeiramente contra um obstáculo que, para a maioria das pessoas, seria considerado intransponível.

E nós, "gente grande e sábia", o que teríamos feito em tal situação???

Mari Lys
Enviado por Mari Lys em 04/05/2007
Reeditado em 16/05/2024
Código do texto: T474179
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