Meu i não tem pingo

 

Pra mim, colocar os pingos nos 'is' e revelar o que sente é difícil. Não por covardia, mas por ser uma pessoa sensível a sentimentos. Lidar com eles e colocá-los no seu devido lugar, principalmente quando envolve outra pessoa, é uma arte que teimo ser iniciante.

 

Pra facilitar o processo, tem gente que coloca os pingos nos is de modo virtual. Uma mensagem de celular, uma indireta no facebook, uma frase cheia de abreviações no whatsapp põe fim a relacionamentos não tão breves assim. Isso sim é covarde, é insensível, é imaturo, desumano. Pessoas usam redes sociais (nem tão sociais assim) para tomar decisões que pesam uma vida inteira – e com plateia virtual.

 

Para outros, dizer a verdade na cara e pôr as cartas na mesa não é difícil, e acho isso louvável. Tento me cercar de pessoas assim, quem sabe aprendo com elas, mesmo que seja por osmose, né? Mas elas também sofrem sim; afinal de contas, ouvir a verdade é esclarecedor, mas dói, e nem todo mundo está preparado pra isso. Confesso: já chorei com verdades esbofeteadas e me senti melhor com mentiras sopradas ao pé do ouvido, mas aprendi que é melhor chorar tudo logo no comecinho, assim sobra mais tempo pra real felicidade do meio pro fim.

 

A verdade é que colocar os pingos nos is significa tomar decisões, começar algo, ou terminar, ou recomeçar. Muitas vezes esse recomeço revela caminhos que não conhecemos. É por isso que as pessoas evitam: é melhor continuar na mesma trilha, sem erros, sem potes de ouro, no surprises. Mas é como li certa vez: o dia em que um caminho não tiver mais obstáculos, é porque ele não te levará a lugar algum.
 

No final das contas, dizer a verdade e tomar decisões – de forma suave e pessoalmente, ok? – nos deixam mais leves, tira-nos o peso dos ombros e nos dá novas perspectivas.
 

Meu i não tem pingo – essa imperfeição é perfeitamente minha. Gosto de ser assim: abstrata, equação sem solução, infinito. Meu pingo é de chuva, de poesia, da mais sensível arte, que respinga fragmentos de mim em você e te congela, que te faz sorrir ou sangrar, aquele ruído que entra em você pra não sair – nunca mais.

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Esse texto faz parte do exercício criativo - Pingos nos is
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Márcia Jordana
Enviado por Márcia Jordana em 24/03/2014
Código do texto: T4741793
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