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Devolva-se ao meliante

Situações cada vez mais insólitas nestas coisas de assalto aqui pelo Rio. Minha rua tranquila foi varrida por uma onda de assaltos de arrepiar. Deu até reportagem na SBT num deles. Se fosse na Barra da Tijuca ou Leblon, vinha a Globo. Até que para assalto em casa de classe média da Tijuca/Andaraí foi um bom IBOPE: amarraram e encapuzaram meu vizinho e limparam a casa. Eu avisei numa reunião com o sub-prefeito que veio outro dia até a rua...Queriam uma providência para tirar o povo que dorme na calçada daqui..."desvalorizava os imóveis". Eu cá com meus botões: vai dar "M____"... e preveni a vizinhança:

- melhor deixar a turma de rua dormindo por aqui...a coisa pode ficar pior...já trabalhei com "menor infrator" e conheço um pouco essa história...

Não foi diferente. Quando se alojam, deixam as coisas, pedem café quente de manhã, remédio pra dor de cabeça e dor de dente, banana, pão com manteiga, e você atende vez por outra "não sujam a barra"...assaltam a rua do lado...é o fim mas é assim...todos adolescentes, roubando para se drogar e articulados a bandos já mais organizados, armados. Os menores, olheiros e "ladrões de galinha"...ladrões de bicicleta...levaram a minha, de cestinha e tudo. De vez em quando vejo passar uma bicicleta vermelha lá longe na esquina...deve ser ela, a minha bonitinha. Tudo acontece a uma quadra de um enorme quartel da Polícia Militar do RJ - o batalhão do Andaraí...não adianta chamar...não tem tempo para coisas pequenas como estas e quando vem não acham mais a criatura nem a bicicleta, de tanta demora. Mas quinta-feira passada foi insólito. Um deles, desconhecido no pedaço, pulou a cerca da casa de minha vizinha e ameaçou a empregada...foi um inferno, uma gritaria, fingiram ter uma arma e o infeliz acabou fugindo...Chega minha filha mais velha à noite do trabalho...

- Mãe, que relógio é esse aqui perto do muro?

Subiu as escadas e me mostrou. Um relógio pesado se dizendo a prova d'água...deduzimos logo que era do assaltante. Ele tinha escalado o muro da vizinha através do meu muro, mais baixo que o dela, com aquelas grades bem altas e pontudas. Na escalada do muro, um dos produtos do "trabalho" do dia deve ter caido do bolso. Guardamos o relógio do meliante sem saber o que fazer com ele. Duas horas da manhã tocam a campainha. Meu companheiro e minha filha atendem pela grade da janela. Era o assaltante - rua escura não dava pra ver bem quem era. Queria o relógio de volta senão "ia sujar a barra dele"...pedia por favor para devolvermos...ia perder a hora do trabalho de manhã...assaltante trabalhador...Meu companheiro irritado disse que só devolvia se ele troxesse a bicicleta de volta...Insanidade...não se pede bicicleta de volta a ladrão...Minha filha mais velha, já com vaga garantida no Nirvana, combinou com ele o seguinte:

- Volta amanhã tá?...agente tá dormindo (bocejo)...olha, vou deixar o relógio num saquinho plástico porque ele não é a prova dágua como tá dizendo aqui não, viu? Eu testei...Como está chovendo, pode estragar...eu deixo no vaso da espada de São Jorge e você passa amanhã e pega, falou? (bocejo)...

O que fazer com um acordo desses? Nos alternamos em casa na sexta a espera do assaltante...protegendo a mais nova que passa boa parte do dia sozinha estudando pro vestibular. Até que o cara de pau passou na surdina e levou o relógio embrulhadinho e protegido da chuva...no saquinho...pra não molhar e estragar...hehehe...só aqui em casa...cada um tem os filhos e os assaltantes que merece e conquista. Ao menos aqui em casa, pelas tentativas que já fiz em conseguir internação para dependência de drogas para o chefe da turma de rua, reconhecem a casa até o momento, como "amiga", me cumprimentam de longe quando não estão drogados e dizem para a jornaleira "aquela dona é legal..." Por isso armaram só o roubo da bicicleta até agora...afinal devem ter reparado que estava mesmo atrapalhando um pouco a entrada da casa e sem uso, me deram uma ajudinha...ficou só a corrente...

E cá pra nós...Aqui onde moro não se pode mesmo negar um relógio perdido a um assaltante necessitado...hehehe...tadinho...

Tenho uma filha adolescente entrando e saindo de casa o dia inteiro...(agora, já sob esquema redobrado de segurança)

Acordos tácitos de sobrevivência...

E o Rio de Janeiro continua lindo...
E o Rio de Janeiro continua sendo...
Alô, alô Realengo, aquele abraço...
Alô torcida do Flamengo aquele abraço...
Aurea Maria da Rocha Pitta
Enviado por Aurea Maria da Rocha Pitta em 10/09/2005
Reeditado em 09/11/2010
Código do texto: T49192
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Aurea Maria da Rocha Pitta
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 65 anos
26 textos (7406 leituras)
1 áudios (305 audições)
4 e-livros (851 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 04:10)
Aurea Maria da Rocha Pitta