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O menino de rua


Já estava acostumada com a alegria de João Marcelo, o menino de rua.
Conheci-o com a perna envolta em ataduras. Perguntei o que acontecera com ele. Explicou detalhadamente que no carnaval havia sido atropelado por uma madame na Praia de Icaraí, e ela sequer prestou socorro. Tinha testemunhas e o caso estava lá na polícia, dizia com ar sério.
Ver João Marcelo, ouvir sua histórias, era um momento de encanto para mim. Diariamente eu dava uns trocados para seu lanche e perguntava a razão de a perna não curar. Quis que ele viesse aqui em casa, para que eu visse os machucados sem as ataduras, mas ele disse que o doutor não iria gostar nada, e desconversou. Ficamos nessa uns quatro meses.
Certo dia, quando voltava de minha aula de musculação, encontrei Dona Zildinha, que era assistida no trabalho voluntário que eu fazia lá no centro espírita. Ela estava catando lixo e quando me viu correu ao meu encontro, me beijando e abraçando. Mas.... viu João Marcelo, que no exato momento passava com um misto-quente e uma coca-cola. Então, ela gritou: "João Marcelo, o que te aconteceu, menino de Deus?" E ele seguiu, não a olhou. Contei a ela a história. Zildinha começou a rir... ria sem parar. Ainda chamou mais duas amigas que, como ela, catavam lixo, e elas começaram a rir também. Eu, com cara de apatetada... Por fim, me diz que João Marcelo é vizinho dela e não tem nada. Cheio de saúde! Ela o vê diariamente sem nada na perna. Certamente ele faz isso ao descer o morro. É um modo de ganhar dinheiro fácil.
Nunca mais vi João Marcelo depois desse dia... Não senti raiva alguma por ter sido enganada. Lembro-me dele, das suas mentiras, da sua alegria...
Se ele voltasse com as mesmas ataduras e as histórias cheias de aventuras, nem sei. Acho que voltaria a dar os trocados pro cabrinha safado!
belvedere
Enviado por belvedere em 16/09/2005
Reeditado em 16/09/2005
Código do texto: T50933

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Sobre a autora
belvedere
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