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Havia alguém que, em meio ao delírio das massas, anotava, anotava, anotava. Preciosamente, elas ainda cantam, xingam, correm, dançam, interpretam e ensinam desesperadamente.  Como ditadores ilusórios – mais do que propriamente soberanos – crêem na sua força. É como se cada componente sentisse essa obviedade empiricamente, já que não pode dar-se ao privilégio fracassado de ser platéia de dois espetáculos.

Espetáculos. Muitos viam apenas um, mas quem quisesse mesmo compreender o porquê de tudo aquilo, poderia identificar vários espetáculos. Sem isso não há como entender o que ocorreu depois da roleta, quando o mundo ficou distante e o povo tão próximo. O que há de errado nisso? Onde é mesmo o espetáculo, no mundo reduzido e ilusório das massas espontâneas ou no mundo pálido do destruidor humano automatizado? Responder não é possível, mas é só ali, sentado como platéia de vários espetáculos que poderemos compreender o lado de fora e o de dentro; a vida e o espetáculo; a verdade e a mentira.

Ao lado, as anotações que pareciam não fazer sentido. À frente, a bola, o suor, o cansaço e - porque não? – o show, a automatização do espetáculo. Do outro lado, as massas radiantes, a mistura de uma excitação de exceção, de uma boa barbárie vigiada com o medo do descontrole, a repentina saudade do contrato social frágil que tantos crêem. Essa condição de ponto médio, de centro de observação, de analista da virtude alheia é que incomoda. Entretanto, não deixa de ser mais confortável que o espetáculo monolítico, a incompreensão da própria miséria. O olhar, que procura compreender, fareja o mundo e persegue o homem que anota. Lia-se as substituições, o número dos jogadores com cartões e os gols, mas muitas outras coisas estavam escritas.

Bezerra da Silva estava lá, no papel e nas massas, embora não estivesse mais no mundo. Sua memória cumpria um papel complementar. Era, simultaneamente, uma homenagem e uma realização. A faixa com o seu nome tremulava, tentando duas coisas improváveis, mas que faziam um enorme sentido. Trazê-lo de volta ao mundo e, ao mesmo tempo, realizar as massas na sua condição de mestra da vida popular. Talvez fosse por acreditar que estas duas coisas fossem claramente possíveis, o homem ao lado não me deixou ler o que ele anotara com nome do Bezerra da Silva.

Tenho certeza que ele não escreveu nenhuma crônica, conto ou texto dissertativo. Embora só ele, e apenas ele, estivesse anotando tudo que ocorria ali. Nossa condição – a minha e a dele - eram concorrentes. Ele anotava tudo e mostrava pouco. Eu não anotava nada, mas seria capaz de escrever muito para saber anotar como ele. Se isso ocorresse, talvez eu sofreria o mesmo capricho, o de não mostrar tudo. Assim como as massas, ele possuía suas próprias ordens, e um refúgio. Um local de muitos espetáculos, que uns podem realizar, outros entender e a maioria não pode, nem ao menos, desconfiar.
Thiago Marx
Enviado por Thiago Marx em 17/09/2005
Reeditado em 17/09/2005
Código do texto: T51148
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Sobre o autor
Thiago Marx
São Paulo - São Paulo - Brasil
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