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Essa noite eu tive um sonho
 
Essa noite, eu tive um sonho; e sonhei que me encontrava só, caminhando descalço e sem rumo por uma estrada de terra nua, em meio a uma paisagem inóspita, sem árvores, sem flores, sem cores, como que em um deserto...

Em meu sonho, a única luz provinha de um sol inclemente que me castigava, me fazia tropeçar e cair, ferindo-me nas pedras e sugando-me as últimas forças que ainda restavam para que continuasse meu caminhar trôpego, pisando as pegadas de meu próprio caminhar em círculos, sem rumo, sem esperanças, sem destino.

Em meu sonho, por inúmeras vezes caí, arrastei-me e levantei-me para novamente cair, a cada vez perguntando-me se o entregar-me à própria sorte, o abandonar-me ao fim inevitável não seria menos doloroso, se afinal não saciaria a sede que me consumia, que afligia meu corpo e meu espírito, se não conseguiria, enfim, a paz derradeira.

Caí e, mais uma vez levantei-me, reunindo as últimas forças que me mandavam seguir adiante, disposto a resistir e caminhar, mas um vento árido e seco começou a soprar e queimou meu rosto, o que restava de minhas roupas, queimou impassível o meu corpo, e senti-me cambaleando e caindo; durante um tempo que me pareceu uma eternidade, meu corpo flutuou no vazio, caindo em direção ao solo duro e seco que lentamente, a cada instante, mais se aproximava de meu rosto, até o baque surdo e final.

E, em meu sonho, senti abandonando-me as dores, solidão, temores, angústias, questões, tudo, restando-me somente as lágrimas que corriam em minha face e se depositavam na areia, que as sugava, somente deixando pequenos pontos marcados. E senti-me desfalecendo e mergulhando dentro de mim mesmo, como em um sonho de meu sonho.

E, no sonho de meu sonho, senti sua mão terna tocando-me a face, enxugando-me as lágrimas, curando-me as feridas abertas de meu tropeçar; senti seu hálito úmido e fresco saciando minha sede; senti o calor de seu colo novamente a me aconchegar; senti seus lábios em meus olhos enxugando-me as lágrimas que ainda os mantinham fechados, com sua sombra protegendo-os da luz intensa.

E pude, então, abri-los e ver que, do chão, de cada pedra marcada por meu pranto, jorrava fonte cristalina que formava um regato; que de cada ponto da areia molhado por minhas lágrimas, brotavam árvores e flores que o margeavam, e que as marcas de meus passos já não mais transpunham um deserto, mas uma estrada florida , por onde você me convidava a caminhar.

Essa noite, eu tive um sonho; e, em meu sonho, sonhei que caminhávamos descalços, mãos dadas, por uma estrada de terra coberta de gramas e folhas, em meio a muitas árvores, flores, pássaros que cantavam e ladeada por um riacho de águas cristalinas que murmurava canções entre as pedras; e o sol, que se punha a nossa frente, enchia de cores esta estrada, fundindo toda a paisagem em seus raios de fogo, e era como se flutuássemos em direção a ele, por uma estrada etérea, sem fim, sem começo, infinita, com você a me guiar...

Essa noite, eu tive um sonho - o sonho que sonhava sonhar.
LHMignone
Enviado por LHMignone em 22/09/2005
Reeditado em 27/10/2016
Código do texto: T52671
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
LHMignone
Mimoso do Sul - Espírito Santo - Brasil
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