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Para uma menina que é uma flor



Porque você é uma menina linda e meiga como uma flor, e gosta de flores, de bromélias e também de ipês amarelos, tanto que chegou a contá-los, um a um, todos os que existem aqui em Friburgo, e os contava nas estradas quando viajávamos juntos, talvez porque eles, quando floridos, se pareçam com você quando tinha cinco aninhos , com os cabelos louros e cacheados como os dos anjinhos barroco das igrejas...

Porque você é uma menina dengosa, minha gatinha , que sempre amou todos os animais e chorou muito quando roubaram o seu cachorrinho Zero, lá em Cabo Frio, e rezava todas as noites pedindo a Deus que cuidasse dele e que o trouxesse de volta; porque você ensinou a Lady e conversava com ela, ralhando “ai-ai-ai, mamãe não gostou” quando ela fazia coisas erradas, e a punha de castigo para logo perdoá-la e dar-lhe um abraço gostoso, que ela retribuía beijando-lhe o rosto; porque você sempre queria fazer carinho em todos os gatos e cachorros que encontrava na rua, até os vira-latas e quando via na rua alguém com um cachorro, pedia para poder “passar a mão”, e que não queria ser promovida a escoteira, para continuar sempre lobinha, o melhor possível...

Porque você é uma menina cheia de sonhos e que, quando eu perguntava o que se passava nessa cabecinha, respondia que só xampu e creme-rinse e que dizia que, quando crescesse, seria veterinária e montou sua clínica em minha oficina, “escambalhando” tudo que eu arrumei e sumindo com todas as minhas ferramentas; porque você, quando foi passar o dia no sítio com Aninha e, quando voltou, ao me abraçar tinha um cheirinho muito esquisito, e eu perguntei se você tinha abraçado algum cachorrinho na rua e você, candidamente, respondeu-me que não, que era um bodinho. E fingia ficar brava comigo, quando eu a chamava de meu bodinho querido... Porque você é a menina-moça que, mesmo muito antes de ter nascido, já havia me avisado que viria, preparando-me para viver este amor imenso; por isso, desde aquele tempo, guardei aquela edição especial do livro “Poemas de muito amor”, do Vinicius de Moraes, que era para lhe dar só quando você ficasse mocinha, mas por eu ser “barriga-fria”, ou por ter entendido os sinais de que você já estava partindo, dei-o antes do tempo, com dedicatória como se você fosse a minha namorada, e que era...

Porque você já é uma moça-flor e, para me fazer ciúmes, me contava que um garoto a tinha paquerado na rua dizendo que lutava jiu-jitsu e para você avisá-lo se algum outro garoto implicasse com você; porque você já não mais fingia se zangar comigo quando eu lhe perguntava se você tinha outro namorado e somente me olhava com aquele seu sorriso enigmático de Monalisa, mas sem me responder; porque eu até já tinha descoberto, em sua agenda, a dedicatória de amor que você escreveu ao seu “admirador secreto” no Dia dos Namorados, mas que eu ainda tinha esperança que fosse para mim...

Porque você é uma menina feliz que gosta de música e, desde pequenina, sabia cantar toda a La Marseillaise que eu lhe ensinei, e quando chegamos aqui você a cantou para o dono de um restaurante onde fomos e que se passava por francês e ele não entendeu nada e nós rimos muito por tê-lo pego na mentira; porque você gosta de Pavarotti, Beatles e Cat Stevens e curtimos juntos as suas músicas e, para implicar comigo, não deixava que eu cantasse as minhas músicas caretas, dizendo que eu não sabia cantar, mas sempre me dava um beijo gostoso quando eu cantava as músicas que eu fiz para você e que sempre continuarei cantando: “eu te amo, Tititi, Tititi te amo” e “ Interesseira, não amas ninguém / tu só me dás beijos / quando queres modelitos / e moedinhas também”...

Porque você é uma menina sapeca e que gosta de “boquinha da garrafa” e da “dança da bundinha”, e ficava linda dançando defronte ao espelho para que eu a visse, implicando comigo para que eu fingisse que estava zangado, ou então sentava no colo do Mano e ficava abraçadinho com ele, fazendo-lhe carinhos e perguntando se eu estava com ciúmes; porque, logo depois, você se sentava no meu colo e me chamava de meu gordinho e deixava que eu me deitasse no seu; porque você sempre estava feliz e ria das minhas bobeiras e gostava de contar as nossas histórias para as suas amigas e ficava triste quando me via triste e se abraçava comigo para ver televisão...

Porque você foi, é e sempre será a essência da pureza de todos os amores que eu tive, de todos os meus mais puros sentimentos, a você dedico todos os sonetos, crônicas, poemas, odes e canções que Vinicius fez e que eu gostaria de tê-los feito e cantado para você; a você dedico todas as minhas lágrimas de felicidade por tê-la conhecido e vivido contigo estes dez anos tão breves, por ter-me ensinado o verdadeiro significado da palavra amor, em toda a sua plenitude e extensão...

Porque você é uma menina que é uma flor e se encontra hoje enfeitando os jardins do Paraíso, e foi embora sem me avisar para não me ver triste porque sabia que eu sou um velho chorão, mas me deixou seus últimos beijos que ainda sinto em meu rosto, e se despediu deixando-me sua mensagem de esperança dizendo que eu não sou só um marinheiro de primeira viagem ou um super-herói comum, mas sim seu pai-herói e que seus beijinhos irão me guiar, peça a Deus, já que você está tão pertinho dele, que abrevie meus anos, para que possa novamente encontrá-la e matar esta saudade imensa e secar estas lágrimas que você já não mais pode enxugar com os seus beijos, como sempre o fez...
LHMignone
Enviado por LHMignone em 22/09/2005
Reeditado em 27/09/2013
Código do texto: T52686
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
LHMignone
Mimoso do Sul - Espírito Santo - Brasil
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