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O MONSTRO

Eu tinha alguns planos que serviam de guia na minha vida. Veio o monstro e acabou com uma boa parte deles. Durante um bom tempo fiquei com pena de mim mesmo por causa disso. Simplesmente sentia uma impotência muito grande quando tentava encará-lo, o monstro. Uma fraqueza tomava conta do meu corpo e da minha mente e eu só tinha vontade de chorar. E chorei muito, sentindo uma auto-piedade quase palpável. Meu cérebro estava repleto de perguntas sem resposta que não me deixavam dormir. Tentei achar o culpado que havia permitido que o monstro complicasse tanto a minha vida e quando me dei conta de que o culpado estava bem ali, do outro lado do espelho, fiquei ainda mais triste. O monstro realmente fez muito estrago. Ele me fez ver do que eu não era capaz de agüentar.

Depois senti uma raiva contínua. O monstro fez nascer em mim esse sentimento novo. Durante um bom tempo uma angústia que poderia se transformar em ofensas a qualquer momento, contra qualquer um, morou no meu peito. Um alívio tomava conta de mim quando essa raiva e essa angústia se faziam ouvir. Eu falava e gritava e, sinceramente, não entendia uma palavra do que eu estava dizendo. Eram palavras novas. Mas, sentia um sentimento de "estou vingado". Pensei, por um bom tempo, que havia aprendido a me defender. Pura ilusão...

Mais tarde veio um entorpecimento dos sentidos e da vontade de tentar entender os motivos do monstro. Pensei, por um bom tempo, que não valia a pena. Hoje vejo que se tivesse permanecido nessa fase por mais tempo durante a minha briga, eu teria me machucado menos. Deveria ter mantido a postura de "Quer saber? Foda-se!" E juro que eu tentei... Tentei mesmo manter essa pose. Alimentar essa imunidade (baixa) diante da dor que o monstro havia causado. Não durou muito. Logo vi que a tristeza, todas as manhãs, vencia a batalha.

De qualquer maneira, hoje estou nesse estágio de torpor e desorientação. Cansei de sentir pena de mim mesmo faz um bom tempo. Aliás, sentimento de compaixão hoje em dia é uma coisa que não corre mais nas minhas veias. Só o meu sangue. Tenho pena apenas de animais perdidos.

Raiva? Essa continua latejando. Algumas vezes mais forte do que outras. Mas hoje, certo ou errado, ela fica reprimida ou direcionada ao vazio. O monstro não enxerga mais os seus efeitos. Mesmo porque, descobri que a minha raiva é motivo de piada para ele.

Vontade de entender? Até tenho, mas é inútil e extremamente cansativo. Não acho o ponto onde tudo começou e, nesse ritmo, o fim não vai chegar tão cedo.

Resumindo: o monstro chegou, bagunçou o meu dia e simplesmente foi embora. E eu fiquei aqui, com a minha raiva pulsando, com a experiência de ter visitado o quarto onde a minha auto-piedade descansa e a com essa vontade de mandar tudo pro inferno.

E agora você quer uma solução?
Simples: estou criando o meu próprio monstro.
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 23/09/2005
Reeditado em 23/09/2005
Código do texto: T52959

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette